
Travessa do Despertar
Toco sua pele invisível, o escudo mais perfeito que um enamorado já venceu, os poros exalando infinito como se cada suspiro fosse um orgasmo seu, uma caixa dentro de outra caixa, um presente interminável de se abrir, a cada camada uma forma mais envergonhada de sorrir, uma risada sem graça embalada no barulho dos papéis de presente como chuvas laminadas a cair.
Cubro com minhas mãos seus dentes escondidos, a alegria acobertada pelo brilho triste de seu batom a desaparecer, a língua mordida pelas palavras que você sempre quis mas nunca teve capacidade de dizer, as promessas que só soam bonitas pelo telefone, as tiradas meio cínicas que necessitam de soslaios para que funcionem, as garafunhas pregadas com mil beijos na tela escura da TV.
Persigo suas pernas em minha memória, as curvas de seus joelhos quase cobertas por seu vestido, o barulho dos saltos em cada vez mais distantes estalidos, uma flor de crochê tão acariciada que já se soltou, suas digitais espalmadas em um muro, marcadas quando uma das sandálias se quebrou, quando te prometi um mundo e ele simplesmente não se materializou.
E você anda sem mim distraída, pelo mundo que antecede o que virá, você anda sem mim por uma vida enquanto la petite mort nos espera para tudo mais ultrapassar, seja para desembarcarmos em uma nova avenida ou nos encontrarmos novamente no mesmo bar, entre sussurros e bebidas, entre o suspense e o respirar.
Toco sua pele invisível, cubro com ninhas mãos seus dentes escondidos, como os joelhos que quase escapam de seu vestido enquanto caminha distraída para o mundo que virá, onde te encontro na esquina entre a rua onde durmo e a travessa do seu despertar, onde escova os seus dentes sonolenta no mesmo espelho no qual me corto ao barbear.
ADOLFO COLEN às
1:11 AM
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