
Correspondências do Front: Lazer e Recreação.
Ei,
Me lembro de todos os táxis que pegamos, aqueles bancos impessoais onde nos escondiamos da cidade pelos cantos a ressonar, os pingos de chuva projetando cicatrizes na pele que não ardia, na cidade que na madrugada mais vazia insistia em arranjar becos sem saída para nos despistar.
Em cada bairro uma ladeira, em cada ladeira um bar, em cada bar uma mesa semi-vazia, em cada mesa uma cadeira fria para a solidão de alguém te acompanhar. Os cigarros que se acumulavam pelas quinas, tanta saliva desperdiçada pela maneira mais ausente de se sugar, os dedos manchados de nicotina estalando isqueiros que morriam soltando faíscas sem nunca realmente se inflamar.
O espelho atrás do balcão te refletindo, ereto esperando algum terremoto para te balançar, os olhos que retornavam vida e luz de um lugar escuro, que de onde se origina não há caminho para ensinar, se nasce assim, não há cartilha ou ferida que se inflija para nos mudar.
O coração próximo da boca. Não há bebida que o faça descansar.
Me lembro de todos fantasmas que atropelamos, tantos e tantos nos atravessando enquanto dirigíamos pela cidade sem pouso e sem lar, os cabelos da nuca se arrepiando a cada conto que inventávamos para os mendigos que vagavam medicados de loucura, a perda da inocência e da doçura que precisou em algum momento do relento e da amargura para se retomar.
Eu me lembro. Não há bebida que faça isso tudo descansar.
Todos os táxis que pegamos, nossas mãos se buscando entre os bancos impessoais nos escondendo pelos cantos do espelho retrovisor, os pingos de chuva projetando matizes onde era tudo gelo polar, seus olhos frios me dividindo em duas na cidade que insistia em criar labirintos para nos despistar.
Vamos, um brinde. Para que eu não possa descansar.
Clara.
ADOLFO COLEN às
12:12 AM
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