Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

De Mentirinha

Eu, quando decidi conhecer o mundo todo, era muito novo para conhecer os meus limites, e muito velho para deixar para lá, e esquecer. Então eu cresci no impasse, entre a tábua da salvação e a tábua da beirada, entre a avenida larga e a encruzilhada, entre o pé no chão e o boitatá. Eu cresci fingindo ser largado, gato vagabundo que viceja sem cuidados, mas sempre com alguém mais responsável a me vigiar.

Eu cresci, sem dourar muito a pílula, como uma criança normal em minha época deveria, metade jogada ao deus-dará e metade escravo buscando alforria.

Cresci esperando ser feliz quando eu crescesse, para acompanhar a felicidade que nos pertence, mas que alguns diziam ser limitada em um quinhão para cada pessoa, uma parte do destino do qual não podemos abusar, uma mentirinha que no início parece boba, mas que no fim do dia tem um potencial incrível para nos estragar, já que quando não buscamos a felicidade que parece ser de outra, corremos o risco de nem de nossa fração participar.

Eu aprendi a querer de tudo, um pouco aqui e uma pitada lá, não correndo cegamente de mãos dadas com um futuro que não sabe aonde realmente vai chegar, estocando a comida pros dias frios mas nunca esquecendo da hora em que nos calha mais cantar.

E então olho para seu berço, meu pequenino grande amor, suas caretas e sorrisos em um sonho que imagino envolvem sorrisos de mães, abraços de pais e rios, rios de leite, e imagino qual irá ser sua forma de alforria.

Canto a mesma canção que minha mãe cantava, faço as mesmas brincadeiras que meu pai fazia, eu sou um produto do que o mundo me fez entre o carinhos de quem eu mais amava todos os dias, um "eu te protejo de tudo" misturado ao "deixe que ela descubra sozinha". E mesmo assim, um dia pedi licença, e tive que sair, mesmo que para meus pais ainda pareça de mentirinha.

Com o coração apertado de medo, com pitadas (muito pequenas) de alegria, eu lhe pergunto: Qual será sua forma de alforria, minha filha?

Bom que ainda vai demorar, e que bom que vai ser de mentirinha!

ADOLFO COLEN às 1:53 AM








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