
Infinito ( For a Girl, For a Boy, For a Little Baby)
Oi.
Eu encontrei você pela ponta de meus dedos. E no momento nem sabia.
Eu somente escrevia.
Não eram cartas dentro de garrafas, porque nunca fui náufrago, e nunca em um dia desses eu desejava me salvar. Eu somente escrevia o que havia dentro, algumas palavras que rimam, outras que se entrelaçam mais ou menos. Vê, certas vezes eu não consigo evitar.
Mas hoje eu não preciso de um ritmo certo pra lhe falar as coisas, porque posso falar diretamente com você. E tudo por causa de meus dedos, do que eles insistiam em traduzir para palavras colocadas em um canto obscuro da rede mundial. Posso não ter colocado as cartas na garrafa, mas de alguma forma você as encontrou, não perdidas em alguma praia isolada, mas presentes no seu trabalho, na sua casa, elas perseguiam você onde quer que estivesse. Você chegou a imprimir uma delas no papel, colocar na sua bolsa, como uma lembrança de boa sorte, o seu próprio patuar.
E eu nem sabia ainda, você me entende, eu somente escrevia. Eu nunca poderia imaginar.
Mas de um recado insuspeito, de um contato que parecia etéreo, eu comecei a tomar conta de meus próprios dedos, eu comecei a imaginar. Eu conversava com você sobre sopas de ervilhas, sobre músicas e poesias, eu imaginava a cor do quarto em que toda noite ia dormir. No lugar onde seus dedos também trabalhavam, eu comecei a imaginar. Havia uma frase em seu perfil, em que dizia " Eu quero: V o c ê".
Eu queria ser V o c ê.
Eu disse uma vez que éramos duas pessoas em distantes apartamentos, tocando um ao outro pouco a pouco em pensamentos. E escrevi o Infinito, que era para uma garota que só podia ser você. Eu disse tantas coisas, não mais pela ponta de meus dedos. Eu disse do fundo da garganta, onde a carne faz palavra, e não ao contrário. Não somos verbos, somente atos, e no momento inicial o meu foi de fugir, de se esconder.
Mas você não deixou, você jogou tanta coisa fora para tentar, e eu tinha tão poucas coisas que eram valiosas para se descartar. Eu era o único habitante de minha vida, e você tinha tantos vizinhos que nunca podia acordar de madrugada, abrir a janela e gritar.
E apesar disso, ou por isso mesmo, decidimos nos encontrar. E do encontro, começamos a namorar. E como naquela carta que você guardava na bolsa, sempre foi muito mais bom do que regular. E nós nos misturamos, não foi?
Você pôde abrir a janela na madrugada, e gritou. Eu aprendi a ter vizinhos. Você pôde guardar as coisas. Eu aprendi a deixá-las ir.
Se isso não é amor, então nada mais é. E agora esse amor se multiplicou, e o que eram dois irão ser três.
No dia do descobrimento do Brasil, nós vamos no casar. É engraçado imaginar que os portugueses não exatamente nos descobriram, eles sabiam que algo devia haver por lá. Acho que é justo dizer também que quando escrevi todas as cartas, eu também sabia que havia alguém lá fora que também valesse à pena descobrir, eu só não imaginava que minha viagem cega pelos oceanos fosse dar em você. Uma terra de riquezas, que me ensinou tanto quanto aprendeu.
Veja bem, eu não estou omitindo nada, eu nunca poderia imaginar você. Mas você existe, e mudei minha casa para a nossa. Meu dedo agora tem a aliança, que vai para a mão esquerda, em linha mais curta para o coração.
Eu nunca poderia imaginar você, mas ainda assim você existe, ainda assim você é.
Você que ser minha esposa?
ADOLFO COLEN às
1:24 AM
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