
Densidade
Coloque suas mãos em uma concha
Toque o meu ouvido com seu ar
Diga que o seu medo do destino
Se iguala ao meu de lhe beijar
Que os fogos são da noite
Que as horas são distantes
Não há como fazer voltar
Que emoções são flutuantes
Querem estar
Onde querem estar
Adolfo Colen
ADOLFO COLEN às
11:11 PM
Refeição
Eu andei por esses lugares afastados, os cantos do mundo de todos os lados, até que meus joelhos doessem e secasse a lama em meus sapatos, que cai como cerâmica em cacos imitando migalhas de pão e te entregam meu rastro. São meus pequenos pedaços, que se da forma certa ajuntados formam meu coração, uma caneca e um prato onde colhi e fiz minha última refeição.
Foi no ponto certo em que meu engolir seco rangeu meu pomo de adão, o colarinho puído perdendo no pescoço seu último botão, o ruído sussurrante de minha jugular, ao levemente se chocar com o ar mais amplo de minha inspiração, o peito se expandindo em um trovejar de chuva que ameaça mas não vem.
Eu sei, as lágrimas só caem quando não tem mais ninguém, e de alguma forma você está aqui, seja na cidade distante onde agora vivo ou na pequena casa que escolhi, as camas vazias nos quartos com somente um lado desarrumado onde tento toda noite dormir, um dorso de mão espalmado atrás de cada travesseiro.
Meu amor eu sei, meu coração é uma máquina de perder dinheiro.
Por isso andei por todos os lados e agora me encontro aqui dentro, o barro na beira do fogo derretendo de volta a sua forma original, as gotas se juntando pelos pisos em massa virgem para um novo ritual, criando novas curvas e novos riscos entre os meus dedos lambuzados.
Duas canecas, dois pratos.
Deixei a porta aberta pra você.
ADOLFO COLEN às
11:34 PM
Poesia que fala tanto de mim, que demoraram 6 anos para eu realmente gostar dela:
Nada de Aviões
É só o ato de levantar a minha mão
Lentamente como em um aceno
E me reencontrar com a solidão
Dizer as mesmas palavras de afeto
Estivéssemos ao longe
Ou se eu respirasse bem perto
Para lentamente aquecer você
Pois uma noite tudo desaba
Quando essas nossas máscaras escancaram
Um sorriso abaixo de um sorriso
Olhando os buracos dos olhos que encaram
O que havia sumido entre nós dois
E você sabe, hoje nada de aviões
Para reencontrar você
Os românticos preferem o trem
(Adolfo Colen)
Em tempo: Blog da Izz e da Dri, minha grande amiga, já é motivo para indicação. Mas é muito bom, meninas crescidas falando das dúvidas de quem passou dos 20 mas ainda olha para tudo com assombro, do cotidiano ao esotérico. Confiram!
ADOLFO COLEN às
12:15 AM
Shhh...
Quando acabou o meu primeiro amor esperava as coisas diferentes. Eu tinha a idéia antiga de que desapareceria em um beco escuro e úmido, ao som rouco de um saxofone que perdia intensidade à medida que se acabava o ar suspirado de uma respiração. Que essa música viria em vagas cada vez mais esparsas, como ondas na proximidade da lua nova.
Mas quando acabou, não estava preparado para o silêncio que se seguia a tudo isso. Não o silêncio espesso que se corta com uma faca, aquele intimamente ligado a qualquer forma de antecipação. Era uma falta oca, sem eletricidade, em que se ouviam os sons preguiçosos de uma resma de papel, e de uma agulha finíssima beijando como um tapa o chão.
Era um silêncio que excluia meu próprio coração.
Eu havia perdido todas as brigas, entendem? Perdi o infinito puxa-empurra, o menos lúdico, o que não estava nem um pouco relacionado à sensualidade. Não era o tira-põe tão típico das brincadeiras do amor. Eu perdi as brigas de controle, quando no fundo sabia que não havia controle algum, já que aquilo tudo nunca foi realmente meu.
Aquele amor nunca realmente me pertenceu.
Por isso disse a uma amiga minha esses dias que o amor deve ser criado solto, sem interferência alguma. Ele é mais selvagem que qualquer um de nós, quando nasce de repente, e não precisa ser domesticado.
Porque se ele é seu, é seu, e pronto. Precisa de água, de comida, de música e de noites dormindo a dois. Não precisa de cercas, coleiras ou de sinos amarrados no pescoço. Ele mesmo ronrona em seu ouvido quando precisa te achar.
E foi dessa forma que descobri como derrotar esse silêncio, como preencher todo esse lugar com o ar espesso e elétrico da antecipação.
Eu só preciso andar por essas imensas avenidas, cortando como faca as interseções e as esquinas, abrindo o tecido indolor de meu coração.
Eu ando por essas avenidas, hora rápido, hora devagar, escutando em meu ouvido um suave e constante ronronar.
ADOLFO COLEN às
6:45 PM
Bengalas de Canela
A persiana semi-aberta filtra e domestica os raios de sol da manhã, mas cria listras negras e amarelas em meu corpo, formando uma máscara camuflada em meu rosto, um tigre de bengala absorto no mecanismo de seu próprio despertar.
Eu queria que a roupa invadisse minha personalidade de repente, que acordasse alguma elasticidade felina incipiente, e que me curvasse em mim mesmo a ronronar, com patas traseiras que andassem para trás enquanto as dianteiras seguissem para frente, fazendo círculos na cama antes de novamente me deitar.
Que me deitasse de lado com os olhos apertados salientando as narinas dilatadas, o cheiro de carne fresca invadindo como plumas minha língua e palato, meus caninos brilhando aguçados em um rosnado-bocejar, o cheiro de seu perfume confundindo minha fome com as cócegas de seu corpo adormecido ao me tocar.
As minhas patas grandes de almofadas escondendo garras, como bainhas de espadas costuradas em macela e algodão, uma terra natal esquecida onde se cozinham bastões de canela silvícola enquanto se faz uma oração, o cheiro que de seus poros transpira, acalmando a fera crescente que sibila na ponta pulsátil de meu coração.
Um tigre de bengala dormindo cansado com as costas viradas para um colchão, a barriga de pêlo claro arruinando sua camuflagem e sua dissimulação, as garras retráteis repousando sob as patas, esperando novamente a exata ocasião.
O momento em que acorda e esbarra sorridente o seio direito em minha mão, na exata hora, no exato lugar.
Onde a persiana semi-aberta filtra e domestica os raios de sol da manhã, criando listras negras e amarelas em meu corpo, formando uma máscara camuflada em meu rosto, um tigre de bengala absorto no mecanismo de seu próprio despertar.
ADOLFO COLEN às
10:15 PM
Essa poesia tem mais de dez anos. Eu achei meus cadernos antigos de poesia, e ando refazendo meu caminho aos poucos até aqui.
Saudade no Bolso
Sempre dizendo saudade agora
Saudade aos pés do relógio de ferro
Sem aguentar esperar a hora
E com a roupa em poeira, eu erro
Sem nunca matar a vontade
De respirar e comer saudade
O primeiro amor é escondido
E rasteja entre o delírio e desejo
O amor do nada surgido
Entre rosas queimadas, eu vejo
A fogueira amarga de minha vingança
Adocicada pelo meu hálito de criança
E me perco em parcas inseguranças
O desejo de ser único e importante
Ser a maior de tuas infâncias
Me sentir super, hiper, gigante
Te fazer em exagero beijar minha boca
Que se importe com voz rouca
Pois, saudade no bolso
Está
E fidelidade no rosto
Será
(19/08/1993)
ADOLFO COLEN às
4:02 PM
Refazenda
Nem sei o que lhe dizer
Quando você sorri de repente
Como criança condecendente
Como uma mulher parece ser
Quando é alguém como você
E de repente eu durmo todas as noites
Apertado vendo tevê em um sofá
Eu dirijo sem destino pelas ruas
E começo a ter o hábito de engasgar
Perco todos os sentidos das piadas
E fico assistindo filmes sobre coisas
Detalhadamente delicadas
Penso em parar de me extender
Em coisas simples e equivocadas
Para tentar muito lhe entender
Porque você sozinha fez essa confusão
E a nós dois cabe resolver
Porque o sofá é muito pequeno
Para minha proteção se refazer
ADOLFO COLEN às
12:07 AM
Eu e ela estamos juntos há 1 ano, hoje o calendário marca a data. Então pensei em mil maneiras de comemorar o aniversário, mil textos que contavam um a um os marcos de nossa estrada, que explicavam como e onde chegamos, que eu desse mais adjetivos ao nosso amor.
Mas eu digo a ela sobre isso todo dia, eu lhe conto onde estamos, e por quais caminhos nós chegamos, e onde podemos chegar.
Eu digo a ela todo dia sobre o que o futuro conta, sobre o que ele contará.
Então resolvo voltar ao passado. Ao primeiro texto. Aonde tudo começou:
Infinito (For a Girl)
Quando penso em você, na noite fria cansada de amar, quero dançar contigo a valsa da meia-noite.
Quero tocar suas rugas quando fica preocupada, ler suas linhas como o código braille de olhos fechados, as palavras não-escritas da história de sua vida em que te decifro como esfinge, e acabo sendo devorado de qualquer maneira.
Porque se essa for a única maneira de te ver por dentro, entro pela boca, causo cócegas no céu da boca com meus cabelos, e localizo em sua língua todas as palavras não pronunciadas do querer.
Porque você se define o silêncio cheio de intenções, nos olhos que aprofundam o mistério, que oblíquos cantarolam a melodia retas de você. E ela é puramente instrumental, pois suas evoluções não se firmam na linhas de estrofes, elas passeiam pelas intenções puras e simples de ser feliz.
E enquanto caminha paralela a mim, distanciada pela estrada que no sul espera meus pés firmarem, penso na matemática estúpida, e subverto a ciência da única maneira que sei, pelas palavras.
Menina, entenda, se duas retas paralelas se encontram no infinito, o infinito é aqui.
Agora.
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Beijos, Ju. Que venham outros muitos anos. Você sabe, eu digo todo dia, todo dia.
Eu amo você.
ADOLFO COLEN às
12:20 AM
Céu de Brigadeiro
Desejo que hoje nossos olhos projetem o mundo com luzes estouradas, nosso dia uma película antiga de textura granulada, espessa na poeira inerente da saudade, onde os prédios históricos da cidade revelam traços nostálgicos de modernidade.
Pois da tez grossa desse mundo granulado, nossos beijos assoprados cruzam o ar em câmera lenta duplicados, com meios-lábios como rastro pousando em nossas bocas sem cessar, um ataque metralhado de desejos como gotas de chuva em formato de semiluas a nos banhar.
Seu batom de cor escura que envelhece como flor seca as suas pupilas, e lentamente se combina com o rosto claro de alabastro, sinto seu corpo ácido em minha língua, o toque tácito de seus lábios em texturas da sua boca de purpurina.
É o atrito de seus cabelos em meus braços como eletricidade felina, afiando suas garras por cicatrizes paralelas e finas, formando um mapa criptografado em meu corpo de retas paralelas que se desviam, antevendo o choque entre fios opostos de uma ligação direta clandestina.
Cores de flashes estourados, é o que desejo de nosso filme nesse dia, o diâmetro dos poros aumentados exaurindo as luzes da retina, causando um palco granulado para a saudade ao meio-dia.
ADOLFO COLEN às
12:49 PM
e-mail
Musicoterapia
4-Track
Dicas do Tio Colen
Nansense
Sanatorium
Ilha de Siris
Contextos
Nunca Plantávamos Coentro
Lemniscata
Carambolices
Causos de Amor
Blue Woman
Penso Logo Digito
Allons, Enfants
Não Discuto
Bagunça Bem Feita
Ur-Gente
Balandronada
Desliga esse Pecado
Parasita de Idéias
Avesso
Caderno V
Ane
Spectorama
Who´ll Stop The Rain
Meus Momentos
Vaquinha Cinéfila
Chez Moi
O Mutante
Megeras Magérrimas
La Vie en Blues
Jornal do Blogueiro
Teorias da Loucura
Trash
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Bêbada e Equilibrista
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