Quinta-feira, Janeiro 29, 2004

Casamento de Minha Irmã

Minha irmã está se casando neste fim de semana. É a primeira da família a viajar por essa estrada. E espero que seja muito feliz.

Em homenagem, desencavo um texto que fiz sobre casamentos, diretamente da lista Sanatorium e dos arquivos do Cardiotopia. Foi para o Pedro e sua quase noiva, mas foi também em certo ponto pra mim, para um futuro possível em mim. E mais importante, foi a faísca em belíssimas mudanças em minha vida. Por isso tenho muito carinho por ele.

Como tenho por minha irmã. Toda felicidade para ela e o Alessandro. Que sejam muito felizes.

O texto é esse:

Olá, amor. Bom dia.

Estive pensando por algum tempo, e te trago um anel. E com esse anel te desposo. Não, não fiquei maluco, e nem tomei café em excesso, como você insiste em me dizer, em toda manhã que temos o prazer de acordamos juntos. E sempre me pareceram tão escassas essas manhãs.

Eu quero me casar com você. É tão simples dizer isso, tão complicado de explicar porquê. Como essas decisões são tomadas. Como transformar isso em palavras, mas mesmo assim vou tentar.

Eu te amo, e acho que esse motivo é uma boa razão pra se iniciar qualquer coisa. Te amo simplesmente. e gosto de te ver acordar ao meu lado. Gosto que me faz sentir-me amado logo pela manhã. Logo quando meu dia vai começar. E gosto do jeito que sorri quando conto uma piada querendo te impressionar. Amo o jeito com que toma as decisões, com aquele ar de que tudo é importante. E na verdade, perto de você tudo é.

Nem tudo são flores, e você sabe que não. Estamos sempre discutindo por nossas próprias razões, e às vezes, tenho que admitir, durmo com uma pontada no coração. Você acha que certas qualidades são defeitos, e que certos defeitos são qualidades. Mas isso é o que você acha.

E nada disso atrapalha o que sinto por você. As horas que passamos conversando, os dias nos beijando, as noites nos amando. E detesto ficar longe de você nos tempos em que fico longe de você. Me sinto mais pobre.

E por isso, com mais bom do que regular, com mais sol do que chuva, com uma vontade de te ter em nossa casa (que já é nossa no momento em que você pisou nela) sem hora pra sair, peço para que se case comigo. Por que quero te ter a meu lado, fisicamente, já que nas outras áreas você não sai de mim.

E te dou esse anel, que não tem início, e não tem fim. Sustenta ciclos e estações sucessivas, é um círculo perfeito. E quero do seu lado esquerdo, porque essa tradição é das mais belas. Os antigos achavam que o sangue do lado esquerdo ia mais rápido para o coração, por razões óbvias. E na verdade vai. Chega mais rápido, quente, e vermelho.

E quero que o use.

As escolhas só podem ser feitas assim.

Quer ser minha esposa?


ADOLFO COLEN às 11:46 PM






Quarta-feira, Janeiro 28, 2004

Eletricidade

Existe a eletricidade que não chia, não dá choque ou ilumina. A eletricidade que vibra, como um tambor ao sabor da ventania, sem ritmo certo a não ser a sua presença no topo da barriga, onde o estômago e a boca perto do coração se comunicam.

Essa presença quase física de um sentimento, um frio em janeiro arrepiando os cabelos. A física inexata do desejo, que engrossa a língua e cria labirintos pelos dedos, a real origem de toda mitologia.

Essa impossibilidade como fio de Ariadne nos guiando pelos becos, apertando os braços como torniquete, os membros pálidos segurando beijos polinizados em ramalhetes, procurando sempre a entrada e nunca a saída.

A mitologia dos amantes é por sua própria natureza invertida, busca rosas sem espinhos, trepadeiras na ravina, busca compania na fronteira e exílio na avenida. O amor percorre toda linha reta de maneira oblíqua.

E como eletricidade atípica, não se conduz quando enchemos nossos olhos em piscinas, água salgada com gosto de saudade e maresia, lavando o rosto em riachos temporários de serpentina.

Ele continua dentro de nós.

Existe a eletricidade que não chia, que não mata ou se dissipa. A eletricidade que vibra, como tambor em ventania, sem ritmo certo preenchendo o topo da barriga, onde o coração e a voz rouca se comunicam.

A real origem de toda mitologia.

ADOLFO COLEN às 4:36 PM






Terça-feira, Janeiro 27, 2004

Carta Aberta e Apócrifa ao Poetinha

"Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."

Vinícius de Moraes - Soneto Da Fidelidade.



Foda-se Vinícius.

Desculpe a minha confissão , meu querido poetinha, eu te admiro muito, e só meu Livro dos Sonetos sabe quantas digitais estão marcadas em suas páginas, dedos de diferentes idades e de variados humores que junto ao tempo grudaram suas páginas já amareladas. Gosto muito do que escreve.

Mas foda-se mesmo assim.
Esse homem se apaixona pelo começo, e nunca, nunca pelo fim. Não fica procurando atrás do véu do amor as chaves e pistas para seu desfecho. Fica imaginando seus filhos correndo pela casa, e antes disso sua mulher caminhando por um átrio amplo em pérola, véu e grinalda. Imagina o anel em seu indicador esquerdo como o círculo infinito que não se queima, posto que é metal e ganha calor com a temperatura de sua pele, e mesmo em mais calcinante febre não pode se fundir.

Mas seu soneto é ubíquo, e francamente um desserviço ao que desejamos perene, um catecismo às avessas contra o que ao primeiro beijo se sente. Evita a reconciliação
.
Porque todos nós já um dia perdemos uma faísca de confiança, machucamos profundamente nossa esperança pelo própria distância que o cotidiano traz. Já perdemos a compostura, já discutimos sobre bobagens à frente de todos, nos machucamos em contrariedade no meio da rua.

E em algumas dessas lutas, no fundo de nosso cansaço, já citamos inconsequentes o infinito enquanto dura.

Quando amar não é fácil assim, e perder esse amor mais difícil ainda.

O conflito interno faz parte dessa vida, e largar tudo para o alto na primeira briga nos torna mais pobres, mais superficiais, mais covardes. E tudo, desde o mais simples dessa vida, necessita de coragem.

Não sei se era o que queria dizer quando escreveu isso, mas as pessoas sublimam, e francamente, é um desperdício. Ser eterno sem querer o infinito, parar por um obstáculo plantado no meio do caminho.

Pelas pessoas que te lêem e não lutam contra isso, é por isso que eu mando você se foder, caro Vinícius.

Mas mesmo assim te admiro.

Fique em paz.


ADOLFO COLEN às 7:57 PM








Carrossel

Eu olhei o céu como em um quadro de Van Gogh, onde vias-lácteas irmãs passeiam em redemoinhos por um azul turquesa de veludo, no centro pedaços nus como pupilas, dilatando-se e contraindo-se como dança de luz. As estrelas piscando em uníssono, como em um relógio cujo ritmo se acerta não pela balança de nossa vida, mas de nossa própria percepção.

Vi as estrelas em força centrípeta, como patinadoras e bailarinas rodando tímidas pelo chão de um carrossel.

De perto todas piscam separadas, em cordões de contas variadas, mas em minha cabeça dançam de mãos dadas pela linha invisível do que penso, do que penso que penso, do que acredito, do novo consenso entre o que faço e o que sou.

Porque quando fico triste essa tristeza é profunda, quando me sinto feliz essa felicidade é infinita, não páro para pensar em causa e consequência, qual emoção é mais sentida e qual a sua mais sólida consistência, qual é o sentido dessa vida, sua medida e transiência.

Eu existo, e isso eu sei, aos filósofos deixo os abismos e aos teólogos o trono do rei.

Sou meu próprio sentido, o ar que respiro e o amor que doei.

Olhei o céu de Van Gogh, onde vivem estrelas em beijos de constelação, e o meu caminho em tela limpa marquei, pintando minhas próprias galáxias com as tintas inconstantes da emoção, azul turqueza de veludo pingando preguiçoso das cerdas de um pincel.

Triste profundo, feliz infinito, rodando ao ritmo-menino de um carrossel.

As estrelas piscando em uníssono, explosões de fogos de artifício ultrapassando as bordas do papel.

ADOLFO COLEN às 12:14 AM






Segunda-feira, Janeiro 26, 2004

Surpresa do Céu

A vida conta antes o que tem pra te dar
E não, eu não quero esperar
Não dá pra colocar as mãos nos ouvidos
Mas é que deve me desesperar
Como um beijo inesperado
Aquele que aguardava tanto
Pra te dar

E que o que vem antes do vento
Seja o ar parado de novembro
Aquele tempo de primavera
Cansada de dar em flor

Vou devorar esses raios de sol
Abraçá-los com meu olhar
As mãos abertas sob o céu

Só pra te inesperar
Só pra te inesperar

ADOLFO COLEN

ADOLFO COLEN às 12:11 AM






Sexta-feira, Janeiro 23, 2004

As Cruzadas

A chuva cai sem vento, sem aviso, como se o céu chorasse calado, sem soluços, relâmpagagos ou trovões. Essas pequenas lágrimas finas envolvem a cidade, molhando cartazes de shows que nunca vi e nunca verei, as letras brilhantes como uma última ribalta antes de descascar.

É como se fosse música que brilha com a tristeza, para em um fade out aos poucos se acabar, deixando somente a parede branca de nossos pensamentos, muros de neblina ao fim de tarde nos acalentando, nosso próprio e etéreo filtro solar.

Os sapatos são de couro que se encharca, seus barulhos marcando com um gemido cada passada, marcando com meus pés pela sola molhada certas marcas na calçada, pistas infravermelhas para a visão aguçada do sentimento caçador. Esse calor que se desvia das pessoas nas ruas acumuladas, como pequenos raios de sol atravessando mangas de casacas, me procurando pelo cheiro de meu hálito, esse perfume limitado por meu sorriso acusador.

Essa luz que como piscada percorre como reflexos as poças enluaradas, nas vitrines das lojas escurecidas quase se mostra descoberta, flashes de um desejo pelos olhos em pupilas de conformação quase completa, mas uma gota de chuva choca-se displicente contra a janela, e como nuvem de verão sua malícia semi-concreta se dispersa.

Como purpurina brilha entre a respiração condensada, passando de pessoa a pessoa como gripe, deflete a luz dos postes que se acendem, se tatuando nas tintas das paredes como grafite, criando pequenos desenhos entre os tijolos como cenas da paixão, os doze passos ao monte calvário de nossa religião.

E no décimo-terceiro quarteirão, esse sentimento-suspiro me encontra na esquina pregando aos becos adjacentes a minha própria ressurreição.

E não adianta fugir. Nesse dia nublado, esse sentimento me achou, e como um cobertor num dia frio o aceitei.

Apoiado no capô de um carro estacionado, e com um sorriso de alívio em meus lábios, entre o canto da boca confessei:

Eu a beijei, eu a beijei.

ADOLFO COLEN às 4:24 PM






Quinta-feira, Janeiro 22, 2004

Tudo Tem Seu Tempo

Os ponteiros de segundos me irritam, nessa dança frenética e incontrolável. Um rio de tempo que não sabe ao certo onde vai morrer, onde vai se misturar ao mar.

Sempre são vermelhos, como para se diferenciar dos mais lentos. O vermelho sempre foi a cor da urgência. O sangue é vermelho, como os lábios dela.

O tempo são cores, amor.

O azul a cor da paciência. O verde do tempo que se curva.

O amarelo a cor das manhãs. Por que o tempo se conta em manhãs também. Como aquelas destinadas a acordar do lado dela.

Tudo é desculpa, é tempo pra te conquistar.

Por saber que você aparecerá do nada, num segundo que passa como uma piscada.

Uma daquelas bem safadas e inconsequentes.

Porque sou inconsequente. Um ato cria uma ação. Uma ação cria uma reação.

E lá estou eu de novo, colado em seus lábios. Como lábios siameses.

Como o tempo chinês.

Um segundo vale muito.

Por isso não fico os vendo passear.

Fecho os olhos e vou.

Fundo.

ADOLFO COLEN às 1:37 AM






Terça-feira, Janeiro 20, 2004

Poesia dos meus vinte anos, e hoje, quase nos trinta, ainda tenho simpatia enorme por ela. Talvez porque seja uma declaração de um menino que queria crescer mas continuava menino.

Faca Invisível

As horas chegam e o tempo passa
O vento sopra e assovia
Canções de inverno no verão
A chuva cai e crepita
Na chaleira que ferve e apita

Olhar fotos que desmancham
Lembranças que amansam
E domesticam minha alma
Metáforas que regem uma vida
Amálgamas que nunca começam
Nunca terminam

Sento pra ver televisão
Leite queimado para os sentidos
E uma faca invisível no coração
Tantos nervos irritadiços
Sou um tremor que não termina

Vamos ser verdadeiros sem ilusão
Matar a dor antes que ela nos mate
Tudo que quero na vida é amor sincero
E um pedaço de bolo de chocolate

(1995)



ADOLFO COLEN às 2:31 PM






Segunda-feira, Janeiro 19, 2004

Do Meu Front

Você mediu minha temperatura, não sei quantos graus de febre, e como em desenhos animados pensei ter estourado o termômetro, espalhando metal líquido e quente pelo chão do quarto, a boca ressecada e sulcada de tanto declarar o meu amor. Eu teria desenhado diagramas com meus dedos nas janelas embaçadas por meu hálito quente, explicado nas plantas de meu coração os caminhos dos mais áridos, e por sua saliva os canais mais rápidos para sua pronta irrigação.

Teria colocado placas em meu peito com sinais de curvas fechadas, de retas quilométricas, lombadas e semáforos, trânsito de sangue nos órgãos mais desgastados trazendo à estrada vicinal uma maior e plena oxigenação.

Porque simplesmente quis que seu caminho fosse o mais excitante, com matas virgens e lagos transbordados, de chuva fina e vento fresco de verão. Que se banhasse em oceanos limpos, de espuma branca e conchas espiraladas pelo chão, que seus pés marcassem areia branca, que fosse eterno entardecer com um mormaço de sal grosso cortando qualquer olhar atravessado, que crescesse arruda em vez de mato contra o mau olhado, refúgios em que pudesse exercer sem medo algum tipo de superstição.

Simplesmente porque o coração corre aos saltos, evitando os ladrilhos negros da calçada, em flores de bem e mal-me-quer despetaladas, em felicidade misturada a aflição. O coração supersticioso é calado, faz o sinal da cruz a cada passo, põe o saleiro sobre a mesa para a pessoa que senta ao lado, corta os cabelos sempre no mesmo ciclo da estação.

Mas não diz o que se pergunta, conta charadas e espera que o outro sempre tenha na ponta da língua a solução.

E em minha febre, pensava o tempo todo ter te dito o que sinto, ter esgotado com minhas botas o caminho antigo, estar sempre com a certeza de que aquele calor entre meus dedos era a presença incontestável de sua mão. Mas na minha febre esqueci de escutar o seu caminho, o encontro de águas dos nossos rios, o ritmo próprio de seu coração.

E achei que eu andava pelos meus objetivos, ouvindo meu solilóquio no mezanino, mapeando os desígnios de minha vida e entendendo tudo como livre-arbítrio, como minha própria opção.

Quando é nosso caminho, nossa troca de carinho, nossa diferente opinião, cachoeiras e redemoinhos que misturam nossos objetivos, nossa mútua afeição.

E percebo então que não te disse o bastante, que não arranhei a superfície do que sinto ressecando minha boca com frases encharcadas de emoção, que descubro que nosso caminho é novo por nele caber o consenso e também a discussão.

Porque nele existe eu, você e o mundo. O mundo real.

E também vamos viver nele. Quando a febre abaixa, quando a poeira assenta, ainda estamos lá.

E assim eu posso te dizer, com olhos claros como o de uma criança, que eu te amo. Cada vez mais.

Minha casa é a sua casa. Pode entrar, e decorar.

ADOLFO COLEN às 2:28 AM






Quinta-feira, Janeiro 15, 2004

Dobraduras

Meu pensamento se fez através da ponta da caneta tinta e papel, em letras cursivas e apertadas, como as idéias que enxarcam o cérebro e não cabem em uma página, se escreve pelas mesas, é tatuado como ondas na calçada. Meu pensamento tem assinatura, mas não exige parágrafos ou cabeçalhos, não marca data.

Meu pensamento se dobra na metade, e de repente se faz carta, mas não sabe o endereço, descansa por um instante em minhas mãos, tremula preguiçoso com o vento. Se sente dividido pelo meio, o bom, o mau e entre ele o destempero, e se descobre querendo ser um pouco mais.

Meu pensamento cria formas no papel, e se torna em cinco dobraduras um chapéu, quer ficar mais próximo de minha cabeça, mas com o topo apontando para o céu. Abraça com suspiros secos meus cabelos, acariciando e subornando meu segredos, até que a chuva chega em suas gotas ritmadas de um ducimel.

E se torna meu brinquedo de criança, meu tobogã e carrossel.

Meu pensamento corre claro na enxurrada, na beira da rua como barco de papel, desvia dos bueiros e dos pés das pessoas apressadas, aquelas que olham para a textura escura de seus guarda-chuvas a chiar. Corre rápido na trovoada, pára por um instante no estio, roda a proa e vai atrás, atrás do véu e sem parar.

E lentamente se desmancha, levando palavras borradas ao deus dará.

ADOLFO COLEN às 12:49 AM






Terça-feira, Janeiro 13, 2004

Dois Traços

Se eu preencher os pontos dessa estrada, transformar em linha reta todas essas marcas pontilhadas, talvez seja uma corda que me ligue a algum lugar, algum destino atrás da maior e mais fechada curva, o futuro que acena ali atrás. Mas uma parte minha não quer saber, quer somente o contato que somente um batida inesperada pode fornecer.

Pois é assim, tão próximo, nos debris de nosso acidente, onde nossos corpos quedam sôfregos e cansados, é nesse momento que posso sentir melhor o seu hálito adocicado, a saliva com gosto de fruta cristalizada que preserva o nosso beijo durante os momentos de separação.

Sentindo seu cheiro invadindo os pomares das fazendas, onde mulheres em vestidos de noiva correm entre as frutas procurando a flor de laranjeira que vai enfeitar o seu buquê, as grinaldas rasgadas deixam partes de seus rostos iluminadas de sol, sorrisos lambuzados de sumo de amoras, lábios escuros frutados murmurando encantos e simpatias de amor.

Seus noivos saindo do cinema abalados, antes do filme acabar, pois sabem que o beijo no fim deixa tantas perguntas sem respostas, vidas escritas que seguem no limbo da imaginação, tantas histórias fechadas sem a menor chance de continuação. Escrevem seus capítulos em pincéis atômicos seguindo a linha da vida na palma de sua mão, marcando com um círculo o seu encontro com a linha do coração.

São as duas beiras da estrada, o outro lado da rua e a ponte que une duas ilhas, é o casamento como encruzilhada e intercessão, atravessa as camadas tornando dois o que era um, amantes se olhando entre varandas que parecem mundos diferentes, esperando que o outro apague a luz, e venha para seu lado dormir.

Andando rápido pela noite, as lâmpadas dos postes atravessam meu corpo em sombra e luz intercalados, me tornando um homem pontilhado, como a estrada livre pra seguir.

E você se deita no banco de trás de seu carro, enquanto seus pais dirigem, as luzes da cidade tatuando em seu rosto outros traços, o claro-escuro de seus olhos e meu nome a te perseguir entre os lábios.

Nossos pontos de unem, formando uma linha reta, que une nossa distância, nossa solidão, é o casamento de nossas estradas, é nossa própria ligação.

ADOLFO COLEN às 5:13 PM






Domingo, Janeiro 11, 2004

Novo Mundo

Inpirando pólen como bolhas de refrigerante, a coceira e o engasgo, a festa efervescente no céu da boca, eu bebo do céu o que o céu me traz. Ventos elísios dobrando meus cabelos, campos ermos de neve salpicados, o tempo transcorre visível em minha cabeça ansiosa por eras glaciais.

Pois os continentes se chocam, criando montanhas, cercando pequenas cidades fecundadas por riachos de aguarrás, onde todas as cores se misturam, se apagam, criando dessas pequenas fúrias as novas texturas florais. O rajado de gerânios, as pétalas como cílios das bromélias, que à luz da tempestade piscam como mil e uma mulheres fatais.

Eu caminho pelos cataclismas, as internas mudanças dentro de mim, como o deus Brahma que dança modificando o mundo nos degraus de uma flor-de-lis.

E toda essa tristeza anterior, toda essa dor, é de nossa própria criação, as montanhas mais altas e os mais profundos abismos, queda e esforço são parte de nosso anjo invertido, de nosso profeta caído, é nossa auto-imposta expiação.

É o anti-coração.

Que das lágrimas faz um dilúvio, lavando nas calçadas nossos medos mais fundos, a sensação de não haver mais nada a perder, e é nesse momento que não há mais contradição, o instante em que a primeira criança do novo mundo chora ao nascer.

Porque se criamos a melancolia, é de nossa sina que a alegria nos faça entender, que se eu creio em pouca coisa, pouca coisa vai me acontecer.

Por isso creio em quase tudo, das antigas mitologias às canções de ninar, no mistério dos santos e nas feras do mar. Acredito na sorte, no mistério da vida e na vida após a morte, na geologia do caminho e na química do querer.

E acima de tudo creio em mim, creio em você.

ADOLFO COLEN às 9:52 PM






Quinta-feira, Janeiro 08, 2004

Aniversário

Hoje o Cardiotopia faz 1 ano. Foi preciso que remexesse no baú dos arquivos para me lembrar dessa data, já que me parece muito mais. Talvez porque eu escreva há muito mais tempo, desde os quinze anos brincando com palavras, tentando achar meu caminho pelas próprias placas existentes dentro de mim.

Talvez porque esse blog tenha começado com uma proposta diferente, um simples diário pessoal com algum humor, alguma poesia e música. Acabou se tornando uma espécie de coleção de fotografias em prosa, a maior parte delas entando conseguir aquela pose distraída, mas infinitamente mais bonita, do amor. Aquele tipo de beleza que se esconde nos olhos do observador.

E, me acreditem, foi uma estrada acidentada, com paisagens bonitas, com desertos desolados, mas que um dia simplesmente soube desviar e ir em direção ao mar. Claro que para depois voltar, e fazer tudo de novo.

Existe um consenso entre os caminhantes que uma vez que você percorre uma trilha longa, fica difícil parar de andar. Me lembra Forrest Gump chegando a um canto do continente, e voltando para ver o outro. Ciclos, reciclos, altos e baixos, se tornam parte de sua corrente sanguínea, mimetizam essa fome de viver, de sentir, de ser feliz, de ir atrás.

E o Cardiotopia é isso, é minha declaração de amor à vida, em todas as suas formas. Sei que parece piegas, mas que sentimento amoroso no fundo não o é? Declarar seu amor é simplesmente ultrapassar o limite da nudez física, é abrir acima de tudo isso sua pele, o seu peito, se expor nas ruas e avenidas, se tornar vulnerável nem que seja somente por um segundo.

Esse segundo te marca eternamente.

Por aqui conheci pessoas que hoje em dia posso considerar amigas, encontrei de novo também a capacidade de acreditar nessas coisas ultrapassadas, nesses atos incoerentes do amor. Conheci a Juliana, e tive todos os meus conceitos revistos em um segundo, nesse segundo em que nos abrimos e vimos o que estava dentro.

Viramos namorados, e enamorados estamos.

Mas a parte realmente surpreendente disso tudo é que aconteceu em somente um ano. Um ano meio maluco, enorme, em que vivi tanto dentro quanto fora.

E em que tive todos os dias a compania de vocês, que lêem. Vocês, que se importam.

E a quem, por ironia, não consigo achar palavras para agradecer.

Então vai um abraço, e um simples obrigado.

A gente se vê.

Adolfo Colen (08/01/2004)

ADOLFO COLEN às 1:37 PM






Quarta-feira, Janeiro 07, 2004

Panela do Diabo

Essas pedras no caminho rolam crepitantes pelos pés, silêncio absoluto salpicado de chocalhos, ferventes na sola do sapato, a estrada uma panela do diabo que como trópico se considera ao sul de qualquer pecado, a zona segura do equador.

Em meu coração remendado existem outras cores além do vermelho desbotado, sobreposições de fibras de aperto involuntário tingidas pela cor profunda do amor, soluções e tapa-buracos que por algum motivo de elevaram, criando cordilheiras que como cartas de um baralho tombam em cadeia a um mínimo tremor.

É o apocalipse dos sentidos, em que se revela atrás de minhas cortinas o espetáculo escondido, gestos lentos e exagerados do adolescente com corpo de homem e alma de menino, olhos pintados de carvão e lábios gotejando de sangue e absinto, os desejos impúberes de um vampiro bêbado de gula e luxúria, as barreiras destruídas pela suave curva que seu quadril faz.

Em minhas costas seu beijo vem voraz, com seus lábios comprimidos como tenaz sufocando em incalculada fúria minha inspiração, tirando o ar preso em meu peito, o cheiro de mofo de tantas noites respirando os lençóis amarelados de meu colchão, a solidão que inundava o meu quarto escapando pelas fendas invisíveis pelo chão, atalhos de escape feitos por seu corpo sem roupas deitado em constante ebulição.

Essas pedras do caminho já foram um dia muros, barreiras de castelos derrubados pela erosão, seja pela acidez de sua saliva ou pela tempestade perene em seu coração. Já foram um dia quintais escuros, mas que viraram estrada pela impiedosa derrubada de minha casa pelo toque suave de sua mão.

Você é a panela do diabo, que como trópico se considera ao sul de qualquer pecado, o continente de chuva encharcado, a tempestade de verão.

ADOLFO COLEN às 11:12 AM






Segunda-feira, Janeiro 05, 2004

Dia de Ano Novo

Abre o biscoito que se esfarela de sorte, com cartas, que como as de garrafas no oceano, contam casos de outras terras, contam atos de outras eras, a gentileza e o bem-querer. Abre a carta esfarelada de um destino vago que pode lhe pertencer, e pensa com a mente aberta que para acertar o alvo basta uma lente de aumento na alma, e sol quente para qualquer fogo acender.

Com os olhos misturados ao púrpura do vinho, noites mal-dormidas em festas esquecidas procuram a vizinhança para acordar, tirar da cama senhores deitados sozinhos com medo de amar, as articulações rangendo ao sair da cama, a dança que necessitam como óleo para se arriscar.

Sussura aos interfones de suas casas que alguém os ama, e que o tempo só faz enrugar. Que a noite de ano novo os chama, como a fênix que renasce da cinza que inflama, e entre os amantes bêbados de madrugada nas avenidas em dança cigana, a luz da manhã logo, logo vai raiar.

Que nos braços de João Pestana os amantes se escondem de dia, sendo encontrados nas esquinas da vida, tomando banhos leitosos de luar, braços abertos e lânguidos, esperando entre as buzinas ansiosas do trânsito a sua sorte virar.

Nas ruas, campos e avenidas. Nas praias, montanhas e becos dessa vida. O relógio torna ao zero, renovando o impossível que todos temos que destruir para crescer, o destino e seus desígnios que todo dia superamos para sobreviver, a mão em seu peito aflito derretendo o suplício de não saber.

Porque o biscoito se esfarela de sorte, mais um ano e se passa e cabe a nós e não às cartas o dever de nos reconhecer.

Cada ano é um espelho fosco que paulatinamente nos reflete, a cada passo que damos em direção ao que queremos ser.

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Feliz Ano Novo a todo mundo, obrigado pelos votos, que retono a todos tardiamente, mas por lupas amplificados.

Abraço.

Adolfo

ADOLFO COLEN às 4:19 PM








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