Quinta-feira, Maio 29, 2003

Trigo

Você tem cheiro de chá em fim de tarde, fumegante e ainda assim encobrindo meu nervo exposto com uma tranquilidade de cheiro doce e erva fresca. É o mato orvalhado da manhã.

Demora no banho, embaçando toda a casa, mas esse cheiro não sai de você. É uma essência demorada de esquecer, ativa a nostalgia de uma criança que se mistura ao desejo de um homem feito. Sabe, estou perdido pra valer.

Tilinta os brincos como em xícaras, os anéis detalhes dourados de sua pele de porcelana. Caminha entre o doce limite do bucólico e diabólico, no meio de uma estrada mal frequentada, onde qualquer um pode ser pecador ou santo. Eu mesmo me olho no espelho e não consigo distinguir a que lado pertenço.

Você põe um vestido, e imediatamente desejo estar perdido em mares dourados de trigo contigo. As plantas que se curvam ao vento, da mesma cor de seus cabelos que invadem minha boca, do mesmo tom do reflexo amarelado de chama que meus olhos produzem.

Quero ser o vento que deita o trigo, a fornalha que faz o pão, a manteiga que derrete, o café quente, as migalhas no colchão.

Você cheira a chá de fim de tarde, mas ilumina minha manhã.

E sabe...Estou perdido pra valer.

ADOLFO COLEN às 11:58 PM








Na Porta

Deixo minha consciência na porta, esperando de braços cruzados algum traço de autocrítica, mas realmente não sei o que isso significa. Quero você, com seus lábios gelados e seu coração quente. Com seu abraço forte, seu hálito de pasta de dente. Quero suas mãos que percorrem pontilhados em meu rosto, que inevitavelmente ligam meus olhos aos seus.

Deixo minha inocência na porta, de rosto vermelho, com um arrepio nos cabelos de tanto desejo. Quero seu tato vacilante, que toca minhas costas num instante que não quero esquecer. Me beija entre as escápulas, minha pele entre seus dentes, arranca minha alma pelas tangentes, e tenho que ser seu.

Deixo minha conivência na porta, olhando os rodapés das paredes, com a idealização torta de não te enfrentar. Quero seus movimentos de serpente, suas coxas que me encaixam em movimentos inconsequentes. Quero suas manias incoerentes, seus hábitos displicentes que só me trazem pra mais perto de você.

Deixo minha anuência na porta, concordando com a mente que reclama contra o corpo que conclama todos os sentidos em mim. Quero seus beijos com a certeza de que com eles posso lutar, pela língua que mais explora, pela saliva que mais demora a nos dominar. Quero seu corpo para disputar quem vai por cima, quem determina a maré de nosso olhar.

Deixo minha influência na porta, tentando dominar meu toque, querendo encher de nuvens seus olhos de luar. Mas quero seus raios, sua gravidade que me leva em um vai e vem, que me transforma em ondas do mar. Quero seus tratos de amor, onde nunca se perde, onde se decide onde a densidade de nosso lábios deve estar.

Deixo minha eloquência na porta. As palavras morrem onde nossos corpos quedam, onde a nossa essência rompe para entrar.

Quero você.


ADOLFO COLEN às 12:11 AM






Quarta-feira, Maio 28, 2003

Lição No 1

Quando eu era moleque, ela me ensinou a beijar. Disse que era como andar em bicicleta sem rodinhas, que era o trapézio sem rede de segurança. Que era como mergulhar de olhos fechados no fundo do mar, onde peixes de olhos brilhantes passeavam entre o vermelho escuro de pálpebras fechadas.

Não era mecanismo, não haviam regras, a língua escorregava onde queria, os lábios se amaciavam com o tempo, desmanchando uma armadilha, soltando a febre antiga. E que para esses 40 graus não havia remédio caseiro, somente a droga da dança, festa e destemperança.

E eu já aflito pela antecipação do desconhecido, fingia ouvir tudo com cuidado, pensando na sensação de um afogado no fundo desse mar. Avaliava o quanto meus lábios eram secos, no gosto doce azedo de maçã verde em sua boca, nos seus dentes afiados, serrilhados como só o de uma menina pode ser. Minha língua se enrolava em glossolalia, falando mil idiomas desconhecidos num sussurro de confusão.

E ela explicando que um beijo não tem tempo, que dura o quanto as bocas colam, enquanto os nossos aviões internos decolam para algum outro lugar. Que não sabia ao certo se devia parar de explicar, e simplesmente beijar.

Encostou seu corpo contra o meu, colocou os braços em meu ombro, angulou o nível de seu rosto, e encostou seus lábios contra os meus. Olhou atentamente nos meus olhos e soltou a minha mão.

Acenando os dedos se despediu, com um sorriso amplo de mil objetivos, e disse que essa era a primeira lição. Que nada que se explica demais atende nossas expectativas. Que é preciso pegar o mundo pela mão. Que o primeiro beijo toma posse sem aviso, no momento em que deve acontecer. Que não iria me ensinar o que não há como aprender.

Ela somente me ensinou a beijar porque corri a seu lado, e sem meias palavras, não expliquei o que iria fazer.

ADOLFO COLEN às 4:12 PM








Clube do Talvez

Ela ajeitou o vestido contra o corpo miúdo, me olhou de soslaio com um meio sorriso, aquele em que os dentes escapam contrariados dos cantos dos lábios, e se sentou a meu lado. Pegou minhas mãos, e num sussurro de tambores me convidou para fazer parte vitalício do Clube do Talvez. Que optasse pelo balança mas não cai.

E eu só olhei com brilho de fio de faca afiada nos olhos. Me equilibrei no fio da meada, para cair mais uma vez.

Não consigo entender os seus desejos, nem se o que deseja me contém. Porque me sinto tão grande para seus hábitos arraigados e tão pequeno para não saber a saída de seu coração. Me perco nos becos sem saída de seus brinquedos, da manipulação incongruente dos seus dedos em minha mão. Ela não aperta as coisas, não afrouxa as cordas, não abre ou fecha as portas, não me expulsa de seu jardim.

Caminha como sonâmbula de olhos semicerrados entre caminhos nem abertos nem fechados, com guaritas de mármore frio e luzes quentes, que iluminam uma sombra que a protege.

A sombra da eterna dúvida, da infinita luta por não saber se quer dar ou receber. Queda com as mãos semi-abertas entre braços semifechados, parada em uma encruzilhada, e não tenho placas para a esclarecer. Não percebe que a estrada a dois não é sinalizada, em cada curva que se derrapa é mais um cicatriz a se contar.

E que o merthiolate arde, como arde, não adianta soprar.

Não estou aqui para lamber suas feridas, para habitar suas guaritas, para ser o guardião de sua indecisão. Tenho as linhas de meu rosto para mostrar, os riscos que corri, a sensação de nunca chegar a algum lugar.

Eu sou tudo que perdi, mas também tudo que ganhei.

A vida se esconde nas esquinas, no fundo das piscinas, onde queira procurar. Só não me venha com a antiga batalha de nervos, porque me cansei. Faço uma guerra contra a guerra, ao fim das hostilidades veladas entre nós. O nó na garganta um dia tem que desmanchar.

Portanto por você entro explícito no Clube do Nunca Mais.

ADOLFO COLEN às 12:37 AM






Terça-feira, Maio 27, 2003

Filme da Alma

Ela tem os olhos grandes, amendoados, e tristes. Segura as pontas de sua alma em um poço profundo de águas calmas, descansa a cabeça nos arbustos do jardim. Pensa em cortá-los na forma dos animais das terras mais distantes, fantasmas verdes do Himalaia, seres híbridos da Austrália.

Caminha entre as trilhas vermelhas da terra molhada, pensando em quanta lama a ser moldada escapa pelas sarjetas da vida. Quanta forma de beleza se esconde nos grandes maciços brutos das montanhas andinas, esperando alguém para ir moldar.

Pensa em quanto tempo falta para partir, para procurar novas paragens. Viajar pelo mundo como em um auto-retrato, onde cada nuance de um lugar se torna uma expressão do que se é, do que se transforma dentro de nós.

Sua máquina fotográfica descansa no peito, dependurada como a um pêndulo que ciclicamente sente necessidade de se expressar. Quer construir o próprio mundo através de seus olhos, e guardar suas impressões na sépia de um suspiro ou na cor berrante de um gemido.

Pensa na beleza crua de um artifício que não sabe seu real objetivo, que é tão belo que dói, que machuca nossos olhos sem querer. Na noite que caminha lentamente ao seu mais puro e simples objetivo, amanhecer.

Com seus grandes olhos tristes vê que tudo na vida está sempre prestes a acontecer, e que a inevitabilidade do dia só torna a madrugada mais fria e qualquer solidão mais vazia.

Tira uma foto da flor que parece transpirar orvalho, e imagina se somos nós que choramos, ou se é a chuva que se entristece por nós.

Se é a pele que enrubesce ou simplesmente o sol que retira nossas máscaras, nossa proteção.

Ela pensa em sua próxima paisagem, e percebe que se revela no que vê, no que guarda, no que mostra.

Ela se revela nos detalhes. Seja em sépia ou em cores, tudo depende do filme da alma.

ADOLFO COLEN às 12:10 AM






Segunda-feira, Maio 26, 2003

Discos Preferidos (4)


Achtung Baby - U2 (1991)

1992 foi um ano de viradas em minha vida, e taí a trilha sonora dessa época.

Nessa época, se alguém me perguntasse sobre o U2, eu diria: Ah, a banda irlandesa que faz músicas bonitas, meio épicas, mas que não dizem muito sobre minha vida. Preferia os sons mais soturnos do Cure, do Echo and the Bunnymen, ou até mesmo o Britpop da época, de nomes já esquecidos por muita gente, como os Happy Mondays, Curve, Jesus Jones. Pegava minha dose de melancolia diária, sendo minha agulha a que deslizava pelos sulcos do vinil.

Minha irmã mais nova comprou Achtung Baby na época em que ganhamos nosso primeiro CD Player, enquanto eu comprava o novo do Teenage Fanclub e Nevermind do Nirvana. Mas, de repente aquele disquinho cheio de fotos coloridas começou a tocar no som lá de casa, e simplesmente fui fisgado.

Começa com a bateria seca de Zoo Station, que imediatamente é soterrada com guitarras cheias de estáticas, Então, como uma tempestade, entra a voz suave de Bono Vox tratada eletronicamente para ficar suja, cantando: I´m ready, I´m ready for the laughing gas, I´m ready, I´m ready for what´s next. Não havia como escapar daquilo.

Era novo, era sexy, era o doce perigoso, de mil curvas na garganta, que arranha e acaricia ao mesmo tempo. Emendava com um rock de padrões convecionais (Even Better Than the Real Thing), para depois somente me soterrar na emoção de One, uma de minhas músicas preferidas de todos os tempos. A emoção na voz de Bono, a letra que dizia uma verdade que tanto podia ser de pai para filho como de homem para uma mulher. E vice versa. We are one, but we are not the same, we get to carry each other, carry each other, one.

Emendava com uma das músicas sobre sedução pura. Simples. Suja. Until The End of The World.

Em 1992, estava começando a pôr em prática o que o adolescente somente imagina, pelo menos naquela época. Deixava o amor platônico para trás; a limpeza do amor em pensamento, para sujar minhas mãos no mundo. De repente eu não suspirava em beijar, e simplesmente prendia a respiração em um beijo. Não imaginava mais namoradas em torres altas de um castelo para sentir sua pele em contato com a minha.

Em 1992 eu descobri a topografia dos poros.

Quando no último show da turnê do album Rattle and Hum Bono Vox se despediu da platéia dizendo que agora teriam que sonhar tudo novamente, não sei se ele imaginava que teria um sonho molhado. Achtung baby é o U2 descobrindo como falar de amor, descobrindo que toda a paz do mundo não impede uma guerra dentro de nós. E que talvez nessa guerra os armistícios deixem tantas cicatrizes pessoais quanto muitas granadas e balas algum dia conseguiram.

Possui vários aspectos do amor, desde a pura sedução (Mysterious Ways), passando pela maldade (You Are so Cruel), chegando até a redenção (Love is Blindness). Tudo isso embalado nos ritmos mais sinuosos, nas letras mais inspiradas, nas guitarras mais estridentes, nos vocais mais emocionados. Achtung Baby é superlativo.

Portanto, esse disco cresceu comigo. Me acompanhou em cada viagem, em cada festa em que me achei e me perdi mil vezes. Embalou beijos, brigas, sexo, solidão. E quando canta que está tentando abraçar o mundo com seus pequenos braços, eu acredito no que ele diz.

Porque naquela época eu estava tentando abraçar o mundo, pela primeira vez.

E não parei desde então.

ADOLFO COLEN às 9:06 PM








Tomo II

Ela adora as noites estreladas, e nela brilham os olhos que piscam de inveja do universo. Quer ter mil partículas que perfazem um todo, quer quarks como células, planetas como órgãos, galáxias como pele e buracos negros entre o que sente e mostra.

E mal sabe que consegue seu intento aos olhos de seu maior observador.

Ela descansa entre as palavras, como cansada de sentir. Suspira encantada com o próprio ar quente que fabrica entre uma e outra batida de seu coração. Com a expansão universal de seu pulmão. Caminha entre o certo e o duvidoso, desconfia do mistério, do igual que se atrai.

E mal percebe que me atrai com o negativo de sua alma que quero revelar.

Ela divide todas as frações ad infinitum, em dízimas periódicas que como traços se repetem em sua vida, sem nunca entender que a única saída não é se dividir mais, e sim se somar para sair do labirinto do vício de se perder por aí.

E mal vê em meus olhos grandes desejos de adição.

Ela se mede pelos braços que alcançam o mundo, não importa o seu tamanho. Acredita na extensão da aura de seus dedos, do calor dos seus desejos, da infalibilidade dos seus beijos.

E mal vê que esfria minha pele ao falhar em me beijar.

Ela sonha com o doce gosto de um entendimento, de uma visão maior do mundo. Desdenha o passado, e só tem olhos para o futuro. Para aquele terremoto que virá.

E mal sente os tremores de minha pele que encosta como placa tectônica à sua.

Ela quer entender o mundo, e eu só quero que perceba o homem.

ADOLFO COLEN às 12:08 AM






Domingo, Maio 25, 2003

Life as a House



Este filme, que em português ganhou o improvável (grande novidade...) título de Tempo de Recomeçar, conta a estória de um homem que tem uma doença terminal, e resolve construir uma casa onde a velha estava. Porque simplesmente foi seu sonho. Chama o filho com quem há muito tempo não tem contato, e começa a destruir a antiga pra recomeçar.

Este filme é um amontoado de clichês, e eu chorei por cada um deles.

Porque os clichês dessa vida são aquilo por onde todos passamos. São o amor que acaba sem ter fim, a solidão, a necessidade de um toque, de um carinho. A pessoa que passa a vida mudando, sem nunca perceber, a pessoa que vive fugindo da felicidade sem saber porquê.

E é por isso que me emociono. Não sei do estilo, do tipo de filme usado, só o que vejo, o que absorvo, e o que fico remoendo depois. Sei da emoção que gruda na retina, do sortimento inconstante dessa vida, de uma vida que sente as mesmas coisas do que eu.

Por isso que meu filme favorito do Fellini é Amarcord, e não La Dolce Vita. Porque não consigo gostar, me identificar, nem mesmo desejar ser alguém ali. Porque a verdadeira vida é a comum, que por si só já é extraordinária. É a eterna luta para se entender, para se construir, pra ser alguém melhor.

De se construir como a uma casa, de ter mil quartos para a família, para os amigos, para as amantes.

Viver é ser um eterno debutante. Aquele que sempre vai ter que começar algo do nascer do dia, e não simplesmente continuar.

Por isso amei cada segundo lugar-comum, previsível desse filme. Porque você eventualmente vai amar alguém, é previsível. Você vai sofrer por alguém, é previsível.

Você vai ter que se levantar, e seguir em frente. Também previsível.

O imprevisível se esconde na maneira como ama, no gosto de suas lágrimas quando sofre, o quanto o nariz empina quando se levanta. É seu toque pessoal.

As músicas que escuta, os livros que lê, eles te marcam não pelo estilo, não pelos decassílabos, isso é pura e simples vaidade, uma forma egocêntrica de auto-satisfação. É masturbação.

Se constrói uma casa, e se ama uma casa não por sua beleza.

Construímos a nós mesmos de emoção.




ADOLFO COLEN às 10:35 PM






Sexta-feira, Maio 23, 2003

Conto que seria publicado em uma revista virtual, mas a bendita acabou...Não o havia colocado aqui antes por achar que não se adequava muito ao Cardiotopia. Mas pensando bem, porque não?

Carro do Futuro

Espero na esquina algum carro de certa cor passar, pra uma foto perfeita. Quero algo que combine com o momento, mas não sei que cor esperar. Como na maioria das vezes nessa vida, espero o que vier, e depois percebo se vale à pena ou não. Esse pensamento sempre me traz você.

Que me apareceu assim, em um canto de festa, parada soltando fumaça de canela no ar. Espessa, serpenteando como uma especiaria vaporosa. Engraçado como a sombra das vigas do armazém resolveram sombrear exatamente a diagonal do seu rosto, dando a sua figura um quê de sonho, de mistério.

Mistério que desapareceu no momento em que colocou os olhos em mim, me dando um meio sorriso, jogando cinzas no chão. A mensagem era clara: Oi, meu nome é tal, e estou aqui pra quebrar você, e seria melhor se fosse em vários pedaços. Estou aqui pra confundir, e não pra me juntar a você para passeios no parque e coisas e tal. Pretendo somente fazer uma aquisição hostil, e te levar pra algum lugar que não seja comum, e te largar lá. Sem migalhas de pão, nem maçã encantada. Quero você bem acordado, tateando no escuro sua liberdade.

E eu, mesmo sabendo disso, não me importei. Olhos vidrados de apreensão, pupilas dilatadas de criatura noturna, dentes afiados por anos de rasgar a carne, sem nunca usar o que a civilização me condicionou a fazer. Afinal de contas, já disse Neil Young, antes queimar do que evanescer (continuo achando que Cobain devia ter usado essa frase de maneira mais surpreendente, e não da maneira óbvia e boba que acabou com ele).

Se for pra entrar em combustão, que seja por alguém. O amor não precisa de ser fênix pra renascer das cinzas: ele renasce do nada, não levando em conta o que acabou. Isso pode ser sobrevivência do mais forte, mas acredito ser mais pura obra do destino.

De qualquer maneira, você prometeu em silêncio, e cumpriu em sussurros. Não lembro em nenhum momento de você gritando, nem na hora em que transávamos. Você simplesmente mordia o lábio inferior, sibilava algo, e me apertava mais forte. Depois escorria pelo lado da cama, e ficava cantarolando baixinho algo levemente familiar. Podia jurar que era Like Lovers Do, do Lloyd Cole, mas acho hoje em dia que era óbvio demais.

Você sempre detestou qualquer coisa que esbarrasse no previsível (e por isso nunca entendi os cigarros de canela).

Por isso, quando penso naquele dia em que você disse que realmente não me amava, não entendo porque fiquei surpreso. Muito menos porque fiquei triste.

Não entendi, acima de tudo, porque você chorou.

Mas, enquanto espero na esquina um carro do futuro passar voando baixo pela rua, não é disso que mais lembro. Não foi isso que me marcou.

Me lembro nitidamente de você conversando com uma amiga baixinha, apertada em um salto alto íngreme demais pra montanhistas experientes, olhando pra mim. Me lembro de que andou até mim sem pressa alguma, com um copo de scotch na mão. Me lembro de você sussurrando em meu ouvido, algo que até hoje não entendi.

Mas claro que isso não importava. Nunca importou.

E não, nós nunca passeamos no parque.

Adolfo Colen

ADOLFO COLEN às 3:08 PM








Coordenadas

Te celebro na lembrança desse vinho
No fundo do fino cristal tinto
Te relembro no canto do bar vazio
No extremo do mundo sozinho

Aqueço meus dedos no fogo
Estalando sons na memória
Me esqueço da vida e do jogo
Apressando o fio da estória

Porque não me lembro de tudo entre nós
Alguma coisa sempre se perde
Entre a excitação da saliva
E a sinfonia do silêncio feroz

Me assombro com o que remete
A tua presença em minha cidade
Em tua existência em minha idade

Como a distância que se mede
Entre as pupilas de teus olhos
E os fios de teus cabelos

Entre as estrelas da noite
e a extensão de meus desejos

Adolfo Colen


ADOLFO COLEN às 11:43 AM






Quinta-feira, Maio 22, 2003

Beijo de Longe Para uma Menina Perdida em Belo Horizonte

Me lembro do seu gosto, como memória doce-salgada no céu da boca. Como antagonismos próprios de nós-nós dois. Como nosso amor-ódio, nosso prazer-culpa.

Nosso morde-assopra.

Essa rede balança tão lentamente, tão ciclicamente, que é metáfora tão gritante que me recuso a pensar profundamente nela. Deixo a brisa da varanda descansar nas samambaias das pilastras, e ligo a estática do rádio pra pensar. O barulho de ondas do mar amassando papéis de seda me acalmam.

Porque o mar pode ter sido nosso início, mas nunca viu o nosso fim.

Tentar descobrir como tudo acaba é uma arte há muito abandonada. As pessoas estão mais acostumadas a começar de novo do que a interlúdios babacas de autocomiseração. Melhor pra elas.

Já eu não consigo de maneira alguma não analisar pontos de fuga. Se eu evoluí em algo nisso, é que agora ao invés de examinar com lupa, uso vistas aéreas. Me deixam com uma distância saudável da sordidez, e me dão uma visão considerável da geografia. Não pretendo mais entrar em detalhes, porque tudo se perde neles.

Eu me sinto pouco confortável em me basear em ditados, mas existem dias e dias.

Portanto, admito os erros por alto, e você me culpa vagamente por coisas que nós dois quisemos, fizemos, ou simplesmente esbarramos.Você não sabe como detesto esbarrar nessas coisas, e não ter um impacto frontal.

De repente o rádio estala, e entra uma musica do Clube da Esquina. Sou do mundo, sou Minas Gerais. Nada mais improvável no momento, porque não ando penando em minha vida de modo globalizado. Apesar das visões aéreas, sempre tudo cai sobre mim mesmo.

E no fim das contas, é minha vida, e de mais ninguém.

Então, finalizando: eu me lembro do seu gosto. Talvez ele tenha sido somente meu, naquele momento de sua vida, e seja algo totalmente diferente pra outro homem. Talvez não.

Mas eu me lembro, e não consigo comparar com nada. Não preciso mais.

O movimento antagônico da vida: eu-você.


ADOLFO COLEN às 6:52 PM






Quarta-feira, Maio 21, 2003

Caninos

As janelas de meu carro parecem não reter o vento, pois meus cabelos parecem remexer mil pensamentos, que passam como correnteza que nada guarda, que nada fixa dentro de mim.

Crianças passam em bicicletas coloridas, e parecem se mover em câmera lenta, ao meu lado, contrastadas pelos gramados que enchem de verde os grandes pátios de uma praça. Suas risadas parecem se mover quadro a quadro, sílaba a sílaba, fazendo cócegas em meus sentidos hiperativos.

O volante parece limitar os meus braços, que pedem ar vasto, que anseiam um grande abraço do vento que tenho certeza que corre selvagem por aqui. Entre o sinal aberto e a música no rádio, eu acelero mais uma vez, pois necessito de espaço, e essa cidade não me segura mais. As lojas da avenida passam enfileiradas, empoleiradas contra o passeio, um formigueiro de gente com mais o que fazer.

E eu tenho mais o que fazer.

Essa é a cidade dela, onde suas placas misturam as letras, criando anagramas de seu nome, limitando a sua influência sobre mim. Na esquina entre o desejo e o desespero corre um beco desconhecido, uma saída, um abrigo. A alameda da partida, o passadiço do nunca mais.

Manobro em direção ao vazio da estrada, aos campos perdidos, nem penso em olhar pra trás. Desvio das armadilhas da lembrança, derrapo nessas curvas perigosas. Tirei meu corpo dessa dança, meu antigo amor, e agora quero a paz do sibilo dissonante do motor.

E quando as casas acabam, sei que esse não é o limite. Carrego seu perfume nesse carro, no banco do passageiro, seu calor que se mantém nos estofados, mesmo com seu corpo há tanto tempo ausente. Estaciono atravessado na terra vermelha de um caminho, e saio para mais uma vez me entregar ao tempo, a seu temperamento.

O vento que sopra aqui fora não é mais selvagem, é feroz. Minha jaqueta bate com força em meu peito, fazendo o barulho surdo de uma taquicardia. Percebo a poeira que entra em meus olhos como simples obra do destino. Vejo as folhas que se levantam em pequenos redemoinhos, vai chover por esses campos vazios. E eu quero estar lá para a receber.

Corro mais longe pelo campo, o mato crepitando em meus joelhos, na direção de um sentimento. E enquanto o céu grita, e se prepara pra chorar, abro meu sorriso mais amplo e mergulho nessa vida.

Quando a primeira gota toca o meu rosto, falo devagar o que me escapa entre os caninos.

Livre. Livre.

ADOLFO COLEN às 11:39 PM








Avenida

Existem pessoas que precisam de mestres, que necessitam de guias. Que não saem de casa sem um mapa da cidade, que nunca comem algo sem saber os ingredientes.

Gente que nunca ama sem saber antecedentes.

Querem um guia tibetano para pregar no alto de uma montanha, um poeta laureado para escrever seus versos, um livro grosso para entender a si mesmos. Precisam explicar em diagramas do que são feitos.

Eles não percebem que nenhuma música mudou sua vida, que nenhuma palavra escreveu a fé na Bíblia. Que o que interpretamos, o que tiramos da arte, do cinema, da filosofia são somente pontos de partida. Que nunca se chega ileso a algum lugar simplesmente porque tinhamos um manual de instruções.

Que o que Buda falou pode ter vários significados, que Maomé não queria mártires, nem Jesus crucificados.

Que no fim das coisas, não são os guias que vão te explicar o caminho, eles vão te dar destinos, e o que importa é como você chega lá. Existe a felicidade, a paz, a satisfação, todas te esperando em alguma esquina, mas nenhuma placa indica, nenhum sinal marca o X da questão.

Ninguém, nem mesmo você, sabe a geografia do seu coração.

Portanto eu saio na rua sem mapas, sem capas de chuva. Bato a cabeça nas paredes, tropeço nas esquinas. Posso até ficar confuso, mas nunca estou perdido. Eu estou onde meus pés caminham ou vacilam, não há a necessidade de terra firme. Quem navega ou caminha, quem voa ou aterrisa, é tudo uma questão de perspectiva.

Jorge Mautner disse que avenida em russo quer dizer perspectiva.

Portanto, de mãos dadas com o que não sei do meu destino, eu percorro essa avenida.

Ninguém me ensinou a sofrer, não vai ser agora que alguém vai me ensinar onde a felicidade está. Vou lá eu mesmo buscar.

ADOLFO COLEN às 12:59 AM






Segunda-feira, Maio 19, 2003

Era de Ouro

Deixa eu te explicar que existo, que tenho sangue nessas veias, que esses ossos sentem frio, que essa pele tem fronteiras.

E que meu sangue perto de você ferve, que meus ossos liquefazem, que minha pele quer ter divisa com a sua.

Que tantos quilômetros de beijos perfazem um caminho, um destino incerto que só nos leva mais longe, nos traz pra mais perto, que em destinos opostos colidem em uma chuva de estrelas cadentes. Que guardo pedaços de asteróides dormentes dentro de mim.

Deixa eu te explicar que sinto, mas que não designo para onde nossos corações vão. Que sei de meu rosto suspeito, de minha boca em seus seios, de seu espaço invadindo o meu. Sei da intersecção de nossos poros, da sofreguidão de nossos hálitos, da perdição de seus olhos que procuram a si mesma dentro de mim.

Que entendo seu medo do nada, da vida após o amor. Do deserto profundo onde se escondem carcaças de antigos amantes, de esperanças perdidas, de chances desperdiçadas, de pura e simples dor. Mas como tudo na vida, sei que a fé varia entre a presa e o predador, que os que acreditam em relacionamentos de intensidades dissonantes não podem acreditar realmente no amor.

Mas deixa eu te explicar o que sinto, deixa eu desfiar nosso fio, nenhum de nós sabe onde tudo isso vai parar. As Fúrias que cortam nosso destino não existem, porque cismo em nelas não acreditar. Toda mitologia antiga guarda guerras, inveja e cobiça; sempre escolheu as emoçoes fortes para sentir. Mas quando nasce a esperança no fundo, quando temos fé, quando estamos juntos, penso em acreditar em tudo, em necessitar de tudo que é bom.

Pois em um mundo onde Ares e Afrodite fazem amor, quem desconfia do que é bonito está do lado perdedor.

Deixa eu te explicar que existo, que tenho no peito esperança, na boca um sorriso, nos olhos uma criança.

E que minha esperança perto de você brota, que meu sorriso escapa, que a criança brinca.

Deixa eu te explicar o que sinto.

ADOLFO COLEN às 11:56 PM








Escrevi há algum tempo, mas certas coisas demoram a se resolver. Existem textos e textos...

Quiromancia

Você abre seus braços, imitando uma guirlanda de flores, e me abraça, me envolve em seu perfume.

E eu sou todo espinhos. Acrescentando perigo à sua delicadeza, defesa em toda a sua inocência, sangue em suas pétalas. Fazendo do rosa claro algo mais vívido, mais vermelho, mais volátil.

Escureço seus olhos e obtenho uma cor mais pesada que esse céu chuvoso. Umedeço seus lábios e capto o brilho de um raio refletido em seu baton. Te beijar é como levar um choque, e flutuando não tenho terra pra me dispersar. Sinto os pêlos em minha nuca arrepiados, e vejo no espelho tão castanho as faíscas obscuras de meu marrom.

Realmente é difícil em meio ao teu perfume me ater à minha arte mais antiga, à minha disciplina mais estudada, ao meu único e redondo dez.

Não consigo escapar.

Me seguro em tantos ângulos, como é tão errado, como é proibido gostar de alguém assim.

Do nada, do início, do impossível.

Quero que você entenda: tudo que sei cabe no bolso direito da minha calça, e tudo que percebo cabe no outro lado. Daí sobram as mãos vazias, abertas, querendo pegar tudo que não pareça poeira, e no entanto seja tão leve que só possa flutuar.

Sobram as mãos que te conhecem por antecipação, que te seguram por pura e simples superstição.

Em uma noites dessas, a lua muda de fase.

Nem preciso de astrologia pra saber: nada está escrito nas estrelas. Não é preciso ler a noite pra saber.

Leia as linhas em meu rosto, que contam minha história, desde o dia em que nasci. O mistério todo, a graça toda dessa vida, é saber onde novas rugas e cicatrizes irão aparecer.

E quando minha linha da vida e a do seu coração vão se conhecer.

Te querer é pura quiromancia.



ADOLFO COLEN às 1:14 AM






Domingo, Maio 18, 2003

Pedidos

As paredes brancas pedem mais quadros, enquanto meu copo pede mais vinho. A noite pede mais vento, e meu quarto mais madeira. De grandes janelas observo a lua crescendo em direção a sua sombra, num eterno abrir e fechar de cortinas de luz. O espetáculo dos ciclos reflete aqui embaixo, onde sempre lutamos pelas estações.

Está frio aqui dentro, e frio também aqui dentro.

Enquanto a música toca sem ecos por minha sala vazia, testo a maciez dos tapetes, encolhendo meus dedos por suas fibras grossas e azuladas. A sala pede um sofá, enquanto meu coração pede você.

Observando o mundo enorme de luzes que se estende por esses morros percebo, talvez de forma mais nítida do que nunca, quão grande, quão vasto é esse mundo. Dentro dessas inúmeras janelas pessoas tiram seus casacos de lã dos armários, vestem seus abraços, seus relicários de uma vida a dois.

Meu casaco preto está esgarçado nas mangas, de tantos fios que puxei entre os dentes nas madrugadas de sucessivos invernos. Minha boca avermelhada pelo frio acaricia o cristal, que leve e fino parece não aguentar nem o vermelho desse tinto.

Parado na janela, meu rosto tocando o ar leve, me sinto tão sozinho.

Tudo porque ela disse vem, e eu não fui.

ADOLFO COLEN às 11:10 PM








Carta ao Improvável

Ainda não consegui entregar essa carta. Acho que ela deve amadurecer, até o papel é meio esverdeado...

Oi.

Explicar para você como me sinto, o que penso quando te vejo virar aquela esquina e caminhar mansamente em minha direção, é extremamente difícil. Não porque não sei o que sinto, mas exatamente por saber.

A gente nessa vida se encanta e desencanta em medidas parecidas, e não exatamente opostas, como a princípio seríamos levados a acreditar. Nada pode realmente te dizer o que te atrai e o que te repele, o que te faz feliz ou triste, sem alguma experiência. Se te olho diretamente, existem dias em que aprofunda sua cor, que dilata suas pupilas, que recebe mais a luz e a reflete. Já em outros dias foge do meu campo de visão, se esconde nas sombras de seus pensamentos, finge ser sozinha, como uma miragem, um reflexo do que você realmente e definitivamente é.

E nesses momentos fico pensando se o encanto não é somente uma idealização de uma pessoa, uma série de qualidades que aspiramos àquela menina ou menino, características que ela nunca será capaz de retribuir à altura desejada. Todos nós, desde que nos entendemos por gente, temos alguma maneira de imaginar um relacionamento perfeito, de sonhar com uma quimera, seja ela um cavaleiro de armadura prateada em um corcel branco, ou uma princesa em torre alta esperando ser resgatada da solidão.

E à medida que crescemos vamos nos tornando especialistas em achar o ponto fraco, a falha nos diamantes mais brilhantes. Essa sensação de impotência triste que nos domina quando percebemos que ninguém é perfeito. Nesse ponto muitas pessoas se tornam amargas, e extrapolam essa percepção ao ponto de aumentar tanto as falhas de alguém, mas tanto, que ninguém lhe serve, ninguém merce que com ela divida o seu amor.

Acredito que entre esses dois extremos viva o equilíbrio, que usualmente está no meio, você sabe. Posso parecer estar chovendo no molhado, mas você ficaria surpresa com tanta gente nesse mundo que ainda não percebe as verdades mais simples. Um clichê não precisa ser falso, entende?

Já me imaginei mil vezes falando com você, colocando as cartas na mesa, apostando alto em algo que não sei ao certo se vai dar certo. Mas é que sou desse jeito inseguro e hermético mesmo. Me dou com uma capacidade ilimitada, mas lenta, morosa, curvilínea. Meu amor não é reto, ele percorre os caminhos mais improváveis, e não tem pressa de chegar ao lugar em que possamos trilhar juntos de verdade. Não sou extremamente cuidadoso com meu coração, não tenho medo de machucá-lo, pois assim não se vive, somente se sobrevive de uma maneira meio pobre.

Por isso preciso descobrir a razão do encanto, preciso entender por dentro de seus olhos o que vê em mim, o que pensa e o que deseja. Acima de tudo, preciso ver o que necessita, se posso preencher algum vazio, completar alguma lacuna em seu coração. A gente ama como a um quebra-cabeças, onde peças se encaixam, arestas se aparam, e se é feliz já somente em montá-lo.

Portanto acredito em suas peças, em suas mãos que me tocam fingindo distração, na sua passagem como gata a meu lado, sempre buscando um contato, algum atrito pelo qual possamos acelerar. Não sei aonde vamos parar, ainda não percebi se seu corpo tem o encaixe mais confortável entre meus braços.

Cabe somente a nós medir o espaço que nos separa, as coordenadas de nossas bocas, a força de nossa atração. Somos pequenos planetas, menina. Que nossa gravidade nos puxe para onde tivermos que pertencer.

E mesmo depois disso tudo, ainda não sei explicar porque me sinto assim quando te vejo...

Se quiser, pode me ajudar. No fim das coisas, somos os caminhos que trilhamos.


Adolfo.

ADOLFO COLEN às 1:08 PM






Sexta-feira, Maio 16, 2003

Felicidade

Crianças passam distraídas pelas bandeirolas coloridas, e imagino qual cor deve aparecer mais. Tanto azul, verde, amarelo e vermelho que meus olhos ardem em resposta, sentem o vento que corta o pátio central da cidade, e se fecham na imaginação de que uma festa não precisa ter muito mais.

No caminho das divisas dessa vida, uma montanha muda o jeito de se pertencer a algum lugar. A sensação de isolamento de um vale entrecortado por alturas vertiginosas, e ao mesmo tempo de curvas suaves e verdes. Animais se aventuram nas encostas como pequenos pontos brancos em movimento, jogos da natureza em que o titereiro não é você.

Nos lugares de grandes espaços, nas pequenas cidades de céu vasto, você não é a única pessoa responsável por seu caminho. A geada cai, a plantação encolhe, a chuva molha, o galo canta, e é simplesmente outro mundo. As pessoas correm por correr e o amor pertence a uma dimensão mais simples, em que as apostas se cobrem sozinhas. As consequências são meros desdobramentos do viver.

Porque por aqui ter dúvidas é sinônimo de existir, e todo o resto somente segue o fluxo invisível e imprevisível do que pode ou vai acontecer. Se o mês é frio, haverão fogões de lenha equipados com leite quente em suas variadas formas, em suas espessuras derivadas de doce ou conhaque. A variação de habitantes tenros a curtidos em grandes ruas de pequenas pedras e carros lentos.

E se o frio chega, imediatamente vem à cabeça a iminente chegada da festa do padroeiro.

Então agora as crianças passam encantadas entre animais, alimentos e cheiros variados. São aspectos de uma realidade feita de tecidos por vezes sujos, por vezes imaculados.

Bêbados e fazendeiros riem de coisas diferentes, negociam seu preço para seus prazeres, para seus deveres, para o que tiver que ser. Namorados variam entre o escondido e o social, estrangeiros caminham entre barracas em leve e divertida desorientação.

E quando fogos de artifício inauguram a noite, e uma banda começa a tocar, nada parece estranho, nada soa diferente do que a alegria poderia ser. Ser alegre é a mesma coisa aqui como na metrópole, somente os caminhos e distâncias divergem.

Ser alegre é saber que você pertence aonde queira pertencer.

ADOLFO COLEN às 4:26 PM








Quando não existem palavras para explicar algo, não é porque não exista algum significado. As perguntas se arrastam por baixo da pele, procurando o sangue espesso, tão dentro e tão fora, que não sei mais se existo para saber ou se para simplesmente desconhecer.

Em noites perdidas saio por estradas distantes, parando em algum lugar onde ninguém parece viver, onde o mato invade acostamentos. Sei que isso me chama, sei que o afastamento me sana, me traz mais para longe do que significo, mais para perto do que desconheço: a mim mesmo.

Gosto do barulho de minhas botas pelas pequenas pedras de granito, entre cantos noturnos de animais que não vejo, mas que com certeza nem dão bola pra mim. É de certa forma reconfortante notar que o silêncio tem seus barulhos. É como se nenhuma molécula, por mais solitária que pareça, não possa deixar de provar sua existência. Entre gritos e sussurros, alguém sempre vai ouvir, tudo depende da sensibilidade do receptor.

Só não sei o porquê de tanta ansiedade. Sinto que o ar se prepara para uma tempestade, mas os céus estão claros, e o ar está seco. Mas é como se houvesse aquela eletricidade suspensa e tensa a me observar.

A natureza me diz: menino, é melhor se cuidar.

Não tenho respostas, nem sei quais perguntas são as certas. Viver é um mundo.

ADOLFO COLEN às 12:31 AM






Quinta-feira, Maio 15, 2003

Alô Doutor

Renato é um menino bacana: 12 anos, andando de bicicleta por todo lugar, esperto pra caramba. Chega em meu consultório reclamando de dores no joelho. Examino o rapaz, peço uma radiografia, enquanto ele fica me falando de sua vida, das meninas que começam a prestar atenção nele, das boas descobertas musicais (me sinto extremamente velho quando ele fala que "descobriu Legião Urbana").

Bem-humorado, conta piadas, brinca com as secretárias.

E quando chegam os resultados de seus exames, lhe falo que está tudo normal. Que os seus ossos estão crescendo rapidamente, e seus tendões nem tanto. Exatamente por isso, eles ficam mais estirados, e podem causar certa dor aos exercícios. Arremato, dizendo que isso é chamado de "dor de crescimento".

Ele ri alto, para depois ficar extremamente curioso, e me pergunta.

- Ué, Dr...Quer dizer que existe isso? Que dói enquanto a gente cresce?

Olho distraído para a janela, enquanto a tardinha vem chegando, e respondo:

- É, Renato. Crescer dói...

ADOLFO COLEN às 10:57 PM








Pontos Cardeais

Você chega em minha casa nos sussurros de seus passos, no farfalhar de sua bolsa contra o vestido. Queria te ver sempre com tantas flores assim, que se interrompem em seus joelhos, em um confronto claro e objetivo contra meus batimentos cardíacos controlados.

Sorri, aperta os olhos, e assim pertence mais ao oriente do que o usual. Joga as chaves no tapete, a bolsa no batente, se senta no meu colo, começa a conversar. Solta as palavras entre os dentes, com evoluções sincrônicas pelo ar. Seus braços em minha nuca, meus cabelos dessarrumando-se entre seus dedos.

Você tem o jeito dos amantes antigos de falar. A intimidade do rosto, de seus pontos cardeais. Solta as frases lentamente, e seus olhos me perseguem. Olhos, boca, olhos, boca. Coloca as pernas no encosto do sofá, encosta a cabeça em meu ombro, me encara e dá uma risada que leve não pensa em morrer nunca. Olhos, boca, olhos, boca.

Boca a boca.

ADOLFO COLEN às 1:09 PM








Atenção, quem navega pelo Cardiotopia: os nome das pessoas colocados em meus textos são TROCADOS, ou até mesmo FICTÍCIOS.

Obrigado.

Adolfo

ADOLFO COLEN às 11:12 AM








Cinco Sentidos

O café que cheira na cozinha me enche de nostalgia, borbulha na chaleira como o chiado de discos antigos, queima a língua como nos tempos de menino. A paciência nunca foi parte integrante de mim.

Nos barulhos metálicos pela pia, uma casa se arruma, e a minha mente custa a perceber. Acordo com o sonho marcado na boca, com o outro mundo tatuado entre os redemoinhos de meus cabelos. Não sei o que fui noite passada, e não tenho idéia alguma a essa hora da manhã. Só sei da flanela de minha roupa, do frio vento que na varanda bate as portas de tela contra os batentes. Só percebo o fogão de lenha e seu bafo quente.

Manu se senta ao lado dessas brasas, se encosta na parede com uma caneca quase tão grande quanto seu rosto, o vapor tornando mais nublados seus grandes olhos claros. Imediatamente, consequentemente enche minha familiaridade de mistério, e já não sei qual sentido a disparar: são cinco tão díspares ao mesmo tempo, complementares.

Se meus olhos a olham fundo, minhas narinas sentem o acre do café. Se meus ouvidos escutam sua risada, o meu tato sente o calor de minha xícara.

Sobra a língua, que queimada se percebe em um dilema. Desempata o jogo entre o gosto da nostalgia, e a novidade de sua saliva. Enquanto vejo o carro de boi que range pela ravina, o homem quer ser menino, que por sua vez quer ser homem, mas se percebe sendo os dois.

Pergunto a Manu o que tem em sua caneca, ela me responde que é café.

Sorrio com mil dentes, me levanto da mesa, e enquanto a chaleira apita, abraço minha menina e resolvo ter os dois.

ADOLFO COLEN às 12:43 AM






Quarta-feira, Maio 14, 2003

Atlântico Sul

Seus olhos de farol iluminam meu caminho no mar de salgaços que é seu corpo, mas não necessariamente me impedem de afogar. Balanço em suas marés, nas fases da lua que dominam o vai e vem de sua pele contra a minha. Navego a favor de seus cabelos, que cobrem sua boca, seus dentes brancos que se mostram entre os lábios, que insistem em morder, marcar, desetender.

Ver seus caminhos, circundando a volta ao mundo em seu umbigo, retirando tua pele de um abrigo, jogar minha língua a seu serviço, desaprender a volta ao porto seguro. Em seu corpo todo mapa é obscuro, e só descobre quem navega, que usa a mão como caravela para lhe estremecer.

Pelas ondas de seus quadris encontro a passagem para suas coxas, em tamanho estreito que alargo, que recebe, que doa o calor dos trópicos a minha boca, que de seu gosto torna minha voz rouca, que desnuda a terra a vista de meu ser. Que avista as índias, as especiarias do querer.

Enquanto misturamos nossas culturas, guerreamos a doce luta de tirar o véu, de olhar as estrelas do céu e se guiar por instrumentos. Se tocar em astrolábios de direção aleatória, redescobrir a nossa história.

Conquistando as curvas do seu corpo, derrapando na inconsistência de seus poros, me perco na mais pura devoção.

Descubro que te navegar é preciso. Viver é impreciso sem sua mão em minha mão.

ADOLFO COLEN às 11:18 AM






Terça-feira, Maio 13, 2003

Tíccia me pede com jeito, eu escrevo. As coisas que me instiga, hein? Mas desconfio que não seja bom em desenvolver assuntos pré-definidos...

Com o coração quebrado em mil pedaços, segura os dentes perdidos em suas mãos.

Com o fim do recomeço, com o medo do embaraço. Quem te olha não percebe que sangra, mas isso não te impede de não coagular, tudo escapa, tudo escorrega, e seus dedos são muito pequenos para segurar. Talvez seja a maciez de sua pele, que mesmo tão combalida insiste em regenerar.

Você detesta os quebra-molas dessa vida, a necessidade de desacelerar. Quer ir rápido para o amanhecer, bater o sol que insiste em causar reflexos, brilhar flashes de confusão em sua retina. Mas quando o rápido é rápido demais? Quando a velocidade te impede de observar a paisagem, essas montanhas que aflitas apontam o céu de maio para você ver?

Com o olho roxo e inchado, de pálpebras inflamadas, percebe a cara quebrada, e o espelho não esconde o parecer: vai quebrar de novo, e ainda assim vai continuar a correr.

Talvez agora com desacelerações não calculadas, entre trechos cheios de poeira da estrada, para ver o dia nascer. Deixar que o sol esquente, a chuva molhe, o vento sopre.

Que dê o tempo para que todo e qualquer amor possa crescer.


ADOLFO COLEN às 11:23 PM








Essa ficou em minha cabeça por tanto tempo que havia esquecido de escrever...

Liquido Vermelho Antigo

No vinho quente que arranha
Em minha boca o frio da madrugada

Nos corredores da estação
Entre as partidas e chegadas

No ar glacial que me suspende
Pelas promessas vazias da estrada

Você me disse que o amor é um rio
De caminhos e trajetos definidos
Que inevitavelmente morre no mar

Eu respondi que o amor era um fio
Um copo cheio e um vazio
Que só querem misturar

Nosso líquido vermelho antigo

Adolfo Colen

ADOLFO COLEN às 4:32 PM








Minha Casa

Você volta de sua viagem, chega cansada com bagagem pesada de couro marrom, e tem tanta coisa que gostaria de te contar. Minhas mãos se apertam em mil combinações de dedos, meus olhos se interpõem em variadas interpretações de desejo, mas não sei como dizer.

Se tudo na vida fosse fácil, se a cada lufada de ar leve de inverno não existisse um asmático, se toda emoção pudesse evoluir de um modo automático...

Mas devaneio, por ser minha natureza, minha profissão de fé. Rimo as coisas naturalmente, por acreditar que deveriam existir cadências mais harmônicas em nossas palavras, por ter fé em um equilíbrio entre o lírico e o mundano. Entre ser lúdico e simplesmente humano. Me desculpe, mas não consigo evitar.

Enquanto me abraça, sinto que foram poucos os quilômetros, mas muitos os anos. Você selou nosso destino em uma frase, em um beijo com gosto de lágrimas, com ranço do soro da verdade que me obrigou a tomar. Você partiu olhando para trás, trombou com os limites de seu mundo, e depois disso tudo retorna sem me perguntar. Sem ao menos me perguntar quais foram os limites do meu.

Como se fosse fácil rastrear nossas próprias pegadas, pisar cuidadosamente nelas de novo, pedir a última chance antes de desistir mais uma vez. Me fala que não é a mesma pessoa, e nesse aspecto realmente acredito em você. Não exijo muito da vida, além de que caminhe por ela sem ter que te refazer.

Você me conta da saudade de meus braços, das comissuras de meus lábios, da inquietação de minha língua. Quer impor a nostalgia, reencarnar uma magia, mas esses abraços já não são meus. São simplesmente fogos-fátuos que se insinuam pelas páginas do tempo passado, puras reverberações de uma música já datada de uma parceria conjunta que já morreu. Se impor pela intimidade com um corpo não traz de volta o combustível que realmente o moveu.

Não posso ficar parado enquanto tira suas roupas dessas malas, esperando encontrar gavetas de madeira antiga para as guardar, empoeiradas, esperando ocas o seu estilo para as preencher. Minha casa está toda abarrotada de renascença, de risos de crianças criadas com novo amor. Minha casa entrou em paz com seu próprio morador.

Da varanda vejo o caminho que vai ter que tomar, as ruas que vai ter que seguir, as esquinas que vai eventualmente contornar. É um mundo grande lá fora, entrelaçado de artérias pulsantes de sangue novo e carros velozes. E parte minha está correndo por lá também, entre os grandes outdoors da minha vida sem você.

Mas a parte que fica aqui entre esses quadros nunca irá te esquecer. Seu toque na decoração é uma pincelada forte na grande gravura, na imensa aventura de viver. Minha casa escolheu o próprio dono para proteger.

Nas intempéries do clima, seja no frio ou no calor, minha casa entrou em paz com o próprio morador.

ADOLFO COLEN às 2:36 AM








Discos preferidos - 3

Nick Cave and The Bad Seeds - The Boatman´s Call (1996)

Nick Cave é um poeta, com a voz que todo poeta sonharia em ter. Com tom entre o delicado e desesperado, canta o amor, Deus, o diabo e nossos próprios demonios interiores. Começa com o punk desesperado e cheio de blues de sua primeira banda, o Birthday Party, até chegar aos tons mais líricos e agridoces de sua discografia mais atual.

A grande virada talvez tenha sido o disco The Good Son, gravado em São Paulo, cidade na qual morou por alguns anos, até se casando com uma brasileira. Nesse disco o piano começa a tomar conta das canções, e até mesmo faz uma versão de um hino pentecostal, cantado em um português quase sem sotaque (Foi na Cruz). Um amálgama de suas duas maiores obsessões: o amor e a religião.

Mas o ponto alto de sua carreira, em minha opinião, é esse The Boatman´s Call.

É um disco de separação, doído e ao mesmo tempo doce. Nessa época ele havia acabado seu relacionamento com PJ Harvey, e a sombra dela aparece por todo o disco. O piano e os violinos se tornam instrumentos de primeiro plano, enquanto as guitarras se aquietam por quase todas as músicas.

Inicia já com um clássico, a incrível Into My Arms. Ali, só na voz e no piano ele destila o caso de um amor que supera as diferenças, balançando crenças, reunificando desejos. Ele diz que não acredita em um Deus intervencionista, mas sabe que ela acredita, e que portanto vai pedir a ele que a mantenha do seu lado. A religião retorna em Brompton Oratory, onde Cave canta o profano e o sacro quase em sequência:

"Uma beleza impossível de se manter
O sangue separado em pequenos goles
O seu cheiro ainda em minhas mãos
Enquanto eu trago a xícara para meus lábios

Nenhum Deus acima no céu
Nenhum diabo no fundo do mar
Poderia ser tão bem sucedido como você
Em me colocar de joelhos"

As lembranças de PJ Harvey ainda se tornam mais fortes em canções como Black Hair e West Country Girl, contos de saudade, tristeza, decepção, talvez melhor exemplificados na música onde o título já diz tudo : Where Do We Go Now But Nowhere?

O amor pode ter ido para lugar algum, mas Cave sobreviveu, e escreveu sobre isso. E de uma maneira muito bonita, apaixonada, como pianos que fazem ecos nas madrugadas mais frias.

Como ele mesmo canta: "Eu acredito no amor/ e querida sei que você também/e acredito em algum tipo de caminho/por onde possamos caminhar, eu e você.

ADOLFO COLEN às 12:20 AM






Segunda-feira, Maio 12, 2003

Com Senso Torto

Enquanto letreiros de neon passam como raios multicoloridos, espero no canto de meus olhos que uma lágrima finalmente se forme, pois estou cansado de não sentir.

Essa vida passa em Technicolor, e eu rodo a estória da minha no granulado nostálgico de um Super-8, com imagens puladas, repetidas, fantasmas dos filmes mudos dos quais nunca te falei.

Está escrito em algum lugar que todas as grandes estórias já foram contadas, que tudo é uma variação leve da mesma sinfonia. Que músicas e estilos se repetem incessantemente na linha do tempo, que a grande cobra morre seu próprio rabo ad infinitum. Grande bobagem.

Não vi todos os filmes, não escutei todas as músicas.

Não formulei todas as perguntas, não bebi de todos os cálices.

Enquanto o dia passa rápido, eu me alimento em slow motion de meu próprio coração, o movimento dentro de outro movimento. É o que sei fazer: procurar no paradoxal algum tipo de consenso torto. Eu sou o senso torto, a boca retorcida, o olhar profundo e o nariz empinado. Sou o toque da pele e o nervo exposto.

Sou o seu oposto.

Traços de neon se esticam ao infinito, e estou cansado de não sentir. Em minhas pupilas dilatadas, beije com cuidado essa lágrima salgada, pois meu sangue ferve e minha saliva extinta vai se renovar.

No tranco a máquina emocional vai voltar a funcionar.

Se alimentando de gasolina, do seu sorriso de menina. Dos filmes surdos que nunca te contei.

Escuta.

ADOLFO COLEN às 1:40 AM






Domingo, Maio 11, 2003

Noites de Maio

Você brinca com o isqueiro, enchendo de gás seu punho fechado, e soltando uma faísca enquanto abre as mãos, causando uma chama azulada que dura menos que um segundo. Sorri como criança, com ares de feiticeira medieval, e gravidade de pequenas cientistas. Diz que a ciência é pirotécnica, a mágica induzida pelos sentimentos de quem vê. Que cada um interpreta essas pequenas experiências com seu limitado conhecimento do mundo.

Eu não sei o que é certo nessas horas, o que sinto ou o que falo. Os flashes de luz azul saindo de sua linha da vida iluminam por momentos nossa sala escurecida pelo fim de tarde. Você se perde em suas filosofias enquanto observo embevecido os fogos de artifício, tão oblíquos como qualquer visão do mundo conhecido.

Sou moleque de fim de tarde, de banho tomado e cabelos molhados, penteados para trás. Menino com roupas quentes e limpas de domingo, segurando entre as mãos peso algum além de meu queixo, boquiaberto com a chuva de prata.

E quando você faz línguas de fogo, não quero que o oxigênio queime por catalizadores, nem que as palavras estraguem o momento. Não preciso de explicações hoje.

Só quero uma menina com fogo nas mãos, e uma noite para desentender.

Vamos, esqueça tudo que sabe hoje à noite. Vamos brincar de noites de maio.

ADOLFO COLEN às 3:53 PM






Sexta-feira, Maio 09, 2003

Sagrado Coração

Você pede silêncio com lábios contritos, claros pela pressão. Exige somente o barulho da chuva, o crepitar dos telhados, sua simples e tola solidão. Você é devota das coisas invisíveis, dos sentimentos imprevisíveis, da entropia que desconstrói uma emoção.

Desmembra tudo que sinto em pequenas expressões, cataloga cada mordida de lábios, cada suspiro, cada rosnado. Não se assusta com o que sente, não demonstra piedade ao que não entende.

E eu nunca te pedi para me entender.

Nem pedi que fizesse de nosso amor uma comunhão, em que come meu corpo e bebe meu sangue, pois não sou consagrado. Sou secular em meu hálito, displiscente em meus traços, que deixo para você finalizar. De certa forma, se relacionar com alguém é ligar pontos, para ver uma imagem maior.

E quando você me ama como a um diagrama de escalas reais, não sei em que ponto entrar, por que porta sair. Desconheço o atalho a tomar, por qual abismo cair. Eu nunca saberia planejar como gostar ou desgostar de você.

Somente respeito seu silêncio, a fusão de nossos medos, sua falta de ar entre meus beijos. Aperto os olhos para ver mais longe, e faço as pazes com meus desejos. Tenho você a meu lado, como quem não quer nada, abrindo os braços crucificada pelo coração que carrega no peito.

Desconheço seu passado, que caminho te levou a esse calvário, quem sangrou as suas mãos. Me pede uma pausa, uma reflexão, e te concedo. Te aperto entre meus braços, você soluça inconsolável, e eu só sei que amo você. O resto fica perdido nos detalhes, no que vai acontecer. Acredito nesse abraço, meu amor.

Eis o mistério da fé.

ADOLFO COLEN às 12:39 PM








Os Trens

Logo à frente eu sigo sem saber
Onde chego ou o que vou querer
Se me afogar na poeira da estrada
Ou bater à porta da casa de você

Se vou encontrar uma cidade pequena
De uma rua única que percorre casas

Ou um deserto verde de dunas rochosas
Que é envolvida de frio condensado

Se vou sozinho com as mãos no casaco
Ou com tua respiração ao meu lado
Se vou com os sapatos que crepitam
Ou sentindo teu perfume decantado

Que me lembra os trens que apitam
Quebrando o silêncio e a solidão
Que anunciam feiras de beira de estrada
E profetizam teu lado em meu colchão

Eu simplesmente tenho fome de estrada
E de você uma bússola no coração

Adolfo Colen (21/05/2001)



ADOLFO COLEN às 12:16 AM






Quinta-feira, Maio 08, 2003

Dança do Futuro

" Nós tambem somos aquilo que perdemos"
Do filme Amores Perros, de Alejandro Gonzalez Iniaritu


Dentre tudo que passou, ainda guardo o que foi bom. Provavelmente porque é o que tem linhas mais fortes, cores mais vivas, implantações mais profundas. Somos, no fundo, somente um homem e uma mulher que tiveram seu tempo, e o aproveitaram da única maneira que sabiam na época. Não consigo hoje perceber se foi melhor ou pior, somente que foi nosso.

E isso ninguém pode nos tirar.

Eu não projetei que fosse te encontrar nessa festa, ainda mais de mãos dadas com alguém. Que entrasse linda em um vestido de noite, com tantas transparências. Engraçado como elas escondem de mim, mais do que de qualquer um, seu corpo que já foi tão íntimo de meus olhos. Talvez seja por que guardo nas mãos suas texturas, seu perfume muito mais do que a simples visão.

E quando me vê também acompanhado, percebo um leve estremecimento de soslaio, como se jogassem uma pedra na superfície espelhada e límpida de seus olhos. É nossa primeira vez.

Quando um grande amor tenta morrer rapidamente, normalmente ele definha aos poucos. Caminha entre doces esquecimentos e pequenos terremotos.

Nos cumprimentamos amistosamente, apresentamos nossas companhias. Falamos um pouco sobre amenidades, percorrendo lá dentro os limites de nossos desejos. Nos despedimos com um beijo na bochecha um pouco mais demorado, uma tentativa de absorver um pouco mais do que um simples contato.

Minha nova namorada me abraça um pouco mais forte do que costuma, apertando o queixo em meu peito, enquanto olha fundo em meus olhos. Procura vestígios, mas tudo que consigo é retornar seu olhar, e sorrir por pura e simples vontade. Ela entra em minha vida aos poucos, e não precisa ter medo.

Penso em tanta gente que considera impossível não amar duas pessoas ao mesmo tempo. Mas enquanto uma entra e outra sai, a porta fica semicerrada, entrevendo dois mundos diferentes.

Entre o passado e o futuro existe o presente, e todas as suas possibilidades.

Pego na mão dela, e vamos dançar.

ADOLFO COLEN às 1:19 PM










ADOLFO COLEN às 12:18 AM






Quarta-feira, Maio 07, 2003

Outra carta, mas essa eu fiz com minhas próprias intenções...

Oi.

Você quer que tudo comece do zero. Que a gente apague as luzes, e ao reacendê-las, que todos os móveis mudem de lugar. Melhor, que sejam móveis novos, que a sala fique maior, e seja adicionado um quarto em um passe de mágica.

Você me disse que amar alguém novo é começar do zero, e que portanto deixa tudo mais excitante, que uma tela em branco nos permite ver uma obra-prima em construção.

Mas claro, essas tintas estão usadas...

Ninguem pode se permitir a ilusão de que não carregamos fantasmas pra onde vamos. Coisas que aconteceram, e que gostaríamos muito de não ver repetidas. Mesmo que a gente cometa os mesmos erros, a idéia inicial é evitá-los. Eu nunca estaria, aqui de pé ouvindo você falar, e tentando te compreender, se antes não tivesse errado em não ao menos tentar compreender alguém.

Você sabe, ninguém aprendeu a conviver da noite pro dia. Ninguém soube lidar com defeitos, qualidades e particularidades na primeira vez que tentou namorar. E apesar de conseguirmos (ou não) lidar com isso hoje em dia, isso não torna nem um pouquinho mais fácil nos relacionar.

Tudo bem, eu nunca entrei em relacionamento dizendo: ok, agora vou me apaixonar por ela, e vou estragar tudo espetacularmente depois. Ou vou me apaixonar, e ela vai me deixar e ficarei miserável olhando pra tela da TV sem ação. Nunca pensei nisso, juro pra você. Mas aconteceu.

Por isso eu não vou te olhar como a uma tela em branco. porque você não é. Você está preenchida. Pode ser até que esteja preenchida por rascunhos, testes indecisos e sem grandes consequências. Mas também posso estar pintando sobre um Renoir,
o que simplesmente é um ato difícil de superar.

Mas eu tento, porque na vida não existem obras completas. Não existe uma sensação de que estamos diante de um momento definitivo, algo que vai durar pra posteridade. Tenho fotos pra comprovar. Aquelas fotos em que sorria ao lado de uma menina também sorridente, e tudo parecia tão certo...Momentos congelados de um passado que mudou, mas que deixa provas incriminatórias desde o início.

Mas eu realmente sei que você mexe comigo, e isso não posso negar. Tenho ciúme de todos os seus ex-namorados, porque eu queria estar com você na maternidade, chorando no berço ao seu lado. Queria ter brincado de pic-esconde, de ter sido seu vizinho. Queria brincar de marido em sua casa de bonecas, de passar anel. Putz, às vezes sinto que queria te dar o anel e ser seu marido em nossa casa de verdade.

E mesmo carregando tantos fantasmas, eu sei que quero ultrapassar tudo isso, e ficar do teu lado. Porque eu gosto de você esse tanto. E pra mim isso é o que pode fazer nós dois darmos certo: a nossa capacidade de ultrapassar todo o passado pra sermos felizes. Juntos.

Menina, eu quero ser seu Renoir!!

Adolfo.


ADOLFO COLEN às 3:14 PM








Minhas mãos tremem por baixo dos bolsos do casaco, apalpando o couro macio, procurando vãos mais fundos onde possam se esconder. Sentem o metal frio do isqueiro, estalam papéis de balas sortidas, amassam números de telefone esquecidos.

A noite chega e o frio se anuncia em um sorriso escancarado de prazer. Beija meus cabelos, escorre por meus pés, bate fundo e oco em meu peito. Pede ecos das frases mais bonitas, encara meus passos com um incontrolável desdém. O frio sopra pelo vento, cavalga pelos desvios de uma vida que não cansa de se pegar despreparada para o receber.

Eu me encontro em desalinho, com a boca condensando o ar como vestígios, como avisos palpáveis e sinuosos de que estou vivo.

O cheiro desse café me enlouquece, desse ar denso e anestesiante que sai de lugares iluminados de amarelo, de madeiras que crepitam reclamando a retração de suas fibras. O que se torna mais sólido só expande o que sinto entre meus poros, só me torna mais íntimo de meu tato, mais consciente de meu peso.

O frio somente me torna mais vivo. Seca meus lábios, afia meus caninos.

Abrindo as portas e as janelas, meu coração arde e minha alma pede chuva.

Agora.


ADOLFO COLEN às 12:15 AM






Terça-feira, Maio 06, 2003

Olhando esse céu nublado, desconfio da ausência de minha sombra. Uma pessoa que não marca o chão onde pisa não deixa espaço pra que ninguém a persiga, e todo mundo quer ser encontrado.

Não faço de minha vida um inventário de rastros e pistas, não uso perfume forte e nem uso roupas espalhafatosas. Não falo alto nem gesticulo demais. Não sorteio meus sentimentos, não distribuo os meus desejos.

No fim do dia, o que quero é falar o que sinto, e que cada pessoa interprete de seu jeito, não me importo. Já que vai ser julgado, que te julguem pelo que você é, e não pelo que tenta ser.

E amar alguém é como ouvir sua música preferida. Aquilo não mudou você, mas faz sua vida mais feliz.

Se eu me sinto assim, quem me julgar pelo menos entenda: eu faço sombras, e deixo rastros. Mas não é qualquer um que pode detectar. Todos têm suas maneiras de escolher suas companias. Eu gosto das nuances, dos detalhes, do pé de página. Me defino nos atalhos e vicinais.

Meu filtro é ser secreto.

ADOLFO COLEN às 3:47 PM






Segunda-feira, Maio 05, 2003

Ruas da Cidade

Eu nasci puxado por uma colher de aço, no centro de Belo Horizonte, e guardo até hoje em baixo de meu queixo essa cicatriz. Cresci pertinho da Floresta, na região leste de minha cidade, entre ruas feitas e desfeitas; de terra, grama, ladeiras e barrancos. Me preenchi de pó vermelho e barro escuro dessas esquinas, e nunca mais deixei de perceber o amor que tenho por essa cidade.

Ela pode ter crescido em tamanho, mas em meu coração ainda aparenta a idade que tinha a meus sete anos. Ainda tem aquele tamanho largo e tão pouco preenchido, com quadras e mais quadras de espaços vazios, preenchidos raramente por casas amplas que desafiavam o mar de morros.

A mesma cidade que me recebia em seu centro aos dez anos, quando pegava o ônibus com meu pai para ir estudar. Quando saía da escola, atravessando a Avenida Amazonas, sem saber era vigiado por ele, que do alto de seu escritório me espiava do lado de sua prancheta, através da grande vidraça de seu andar. Meu pai, que me ensinou a não me perder entre essas ruas, e que para mim, até hoje, sabe mais ser belorizontino do que eu, que nasci aqui.

Percorria os prédios velhos que limitavam as ruas com nomes de índios, e sempre parava embasbacado para ver as horas em um relógio gigante que ornamentava uma loja de consertos. Um menino pequeno, eu sei, mas que sentia grande por poder andar por essas ruas, por conquistar esses territórios até então desconhecidos. Rua Guajajaras, Tamoios, Carijós, entrecortadas por ruas de estados, fossem eles Espírito Santo, Rio de Janeiro ou São Paulo. Viajava pelo país e por seus habitantes caminhando pelo centro do coração de Minas.

Cresci com a percepção indelével de fazer parte daqui. Cresci sabendo que ali era meu lugar, e onde quer que fosse, carregaria um pedaço de Belo Horizonte comigo. Hoje em dia, nada me faz mais triste que andar por aquelas ruas de minha infância e ver tanta coisa mudada, tanta gente se esbarrando. Não ver, acima de tudo, algum pequeno desbravador sair do colégio a conquistar a cidade. Nada mais é tão seguro, e a magia antiga se esconde atrás da fuligem e do medo.

Então fecho os olhos por um momento, e me imagino olhando para um grande relógio, enquanto pessoas passam apressadas para o trabalho. Meu pai não trabalha mais aqui e, mesmo que não me veja mais do seu andar, ainda pensa em mim, me vigiando por essas estradas maiores que tive que percorrer.

E penso em minha BH. E penso nas palavras de meu velho, me dizendo há alguns dias que essa cidade era a mais charmosa que havia conhecido, em sua juventude de subir Bahia e descer Floresta.

A música diz que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais.

Eu sei disso. Ainda bem que é assim.

ADOLFO COLEN às 11:57 PM








Mais um da série "Salvando Textos Antigos":

Pergunta sem Resposta

Vamos pensar devagar, como se em câmera lenta. Não que faça as coisas mais fáceis de ser evitadas. Porque não há como reverter um acontecimento, só porque ele se arrasta em vez de correr. Não quando é como um maremoto.

Como aquele dia em que ela me disse que me amava. Ela me preparou pra isso. Veio com um rugido prévio de tambores, uma abertura de cortinas. E ela, toda maquiada, com o cabelo em cachos cuidadosamente descuidados, se apresentando com um sorriso de satisfação.

Ela abriu a boca num sorriso perolado, suspirou perfume de cereja e disse: Eu Te Amo. Com todas as maiúsculas.

Me deitou no colo dela, acariciou meus cabelos, como pra se procurar no meio deles. Me olhou de cima, respirando levemente em meus lábios.

E disse: agora que te amo, vamos fazer o amor.

E retirou cada peça como uma parte de si que despia uma barreira. Cada ato em meditação, um sorriso distante dos sorrisos normais. Era doce.

E depois do amor, se deitou sobre mim, brincando com minha barba, fazendo desenhos em meu corpo. Tomava um gole de vinho e se olhava beber no espelho. Dançou uma música nua e logo, logo chorou.

Uma lágrima solitária no canto dos olhos. Escorrendo cheia de voltas nos contornos do rosto dela.

E de novo se preparou pra dizer o que sabia desde o início. O que começou com o rufar dos tambores, passou pela abertura das cortinas, e percorreu toda a palavra amor: eu te amo, mas não posso viver contigo.

Porque me amo, e não consigo viver comigo.

E eu, parado no meio da cama, com névoa de cigarro escorrendo pelo ar. Como serpente dando voltas, sem realmente sair do lugar.

Realmente me perguntei porque alguns meses mais tarde. Mas prefiro não ter respostas. Elas nunca me satisfazeriam mesmo.

Uma pergunta sem resposta é como um amor sem volta.

Tudo se iguala assim.

***************

ADOLFO COLEN às 11:03 AM








Filmes de Arte, Canções de Amor

Um dia ele viu Love Story, e simplesmente isso virou sua cabeça. Decidiu que amar era nunca ter que pedir perdão. Achou o filme realmente um assombro, um colosso, um apoio para todo e qualquer relacionamento. Não que quisesse que Cristina morresse de leucemia, ou que sua estória de amor passasse por tantos percalços. Em sua opinião, todo e qualquer percalço é inevitável, portanto seria contraproducente tentar criar mais alguns. Talvez fosse melhor nem tentar andar.

Se pegava sentado no sofá de casa, imaginando maneiras de exigir de sua namorada um ato de desapego. Queria que ela descobrisse que o amor é algo incultivável, que nasce de nossas emoções mais profundas sem nenhuma lógica. Queria explicar que o amor é uma partenogênese, que nasceria tanto em uma mesa de sinuca como em um campo florido, por motivos que ultrapassavam suas vãs filosofias.

Dizia a si mesmo que o amor estava lá, e que não era seu papel lhe atribuir qualidades, mas sim não pensar muito, e não olhar para trás. O arrependimento não faz parte da seleção natural. Errar e acertar não vão me impedir, amar é nunca ter que pedir perdão. Era seu mantra, seu way of life, repetido inúmeras vezes entre o momento de acordar e o de se deitar. Tentando não pensar, pensou demais.

Cristina começou a achar esquisito como ele definhava a olhos vistos. Parou de fazer a barba, só andava de roupão pela casa, de cabelos revoltos, que pareciam não ver um pente há vários dias. Sentava-se à mesa de jantar, e entre grunhidos e risadas, comia rapidamente sua comida, sem lhe dirigir palavra alguma. Quando ela perguntava sobre o que tinha acontecido, por que ele andava tão desleixado, ele simplesmente levantava o rosto dos poemas de Pessoa e dizia algo sobre perdão, tuberculose e noites de Cabíria.

Acostumada a seus surtos intelectuais, não percebeu que havia algo mais grave no fundo. Achava normal que se emocionasse com Fellini, que lesse Augustus dos Anjos, que ouvisse rock inglês depressivo em último volume. Tudo isso eram partes dele com as quais ela aprendeu a conviver. Afinal de contas, foi ele quem se aproximou dela em um sobretudo preto e poemas de Baudellaire debaixo do braço, e pela primeira vez lhe perguntou se ela poderia ser seu ópio.

Ela ficou extremamente atraída pela idéia de causar vício em alguém, de que pudesse ser o amor da vida de alguém sensível, com ar de poeta do fin-de-siécle. Achou que alguém que sentisse tanto seria capaz de amar esse tanto, mas se esqueceu de um problema sério: quem se auto-intitula intelectual usualmente não consegue amar alguém tão profundamente como ama a si mesmo. Infelizmente ela nunca havia lido nenhuma entrevista do Gerald Thomas.

Portanto, quando ele se cansou disso tudo, ela pode perceber que a obsessão era seu estilo de vida, e que se ele não ficasse obcecado por ela, no relacionamento dos dois, não haveria futuro. Se perguntou qual seria a melhor e maior estória de amor de todos os tempos, qual o grande amor que o inspiraria a focar em um relacionamento.

Por um desvio do destino, copiou Love Story em cima de um filme qualquer do Bergman que ele tinha em sua estante. E o estrago já estava feito.

Ele nunca mais foi o mesmo, e com o tempo achou que além de não pedir perdão deveria tambén não pedir mais nada. Achou que ir em frente não era mais uma escolha. Descobriu que não haviam motivos reais para tentar as coisas, que não havia realmente uma razão para se errar. Parou de experimentar, parou de comer, parou de dormir. Não tinha como ficar insistindo em coisas das quais poderia se arrepender depois.

Ficou obcecado com o ar, e um dia simplesmente parou de respirar. Foi encontrado em sua cama, entre uma foto de Ali McGraw e uma cópia rasgada de Flores do Mal. Morreu rimando, como em um ato de redenção.

E muito tempo depois, entre os bistrôs da cidade sempre podia se ouvir a seguinte frase sendo pronunciada:

-Ah, o Pepe? O Pepe morreu de Hollywood...

ADOLFO COLEN às 12:02 AM






Domingo, Maio 04, 2003

Amor de Longe

Oi.

Você vem do meu bairro. Talvez tenha passado por minha rua várias vezes, enquanto eu brincava de jogo de botão na varanda.

Talvez tenhamos esbarrado nossas bicicletas, naquele jogo de polícia e ladrão que fazíamos com as meninas da rua. Eu, minha BMX Pantera e muita coragem (sob uma casca infinita de surpresa). Talvez você tivesse uma Ceci, que era moda na época. Carregava tua Suzi na cestinha da frente, e pedalava altiva entre o nosso bando de meninos empoeirados, rasgados e beligerantes.

Deve ter rido da carona nos ônibus que costumávamos pegar. Da cachorra boxer do vizinho dos derrubando no chão, do chiclete na palma da mão na hora do bafo. Das bolinhas de gude que se esparramavam como vírus na terra vermelha do terreno baldio.

Deve ter tido medo, como nós, da pracinha do Preto Velho, onde todo sábado pela manhã apareciam galinhas pretas mortas, garrafas de cachaça e outras coisas irreconhecíveis pra moleques de 8 anos(e onde minha cachorra Catita encontrou descanso eterno, antes da pavimentação).

Com certeza brincou de passa anel, e pega bandeira. Pra ser a primeira da fila, gritava zerinho, deusinho, pra então ser o primeiro. O primeiro que já nasceu terceiro, coisas de criança.

Você se lambuzava de doce de leite Borboleta. Pão de queijo era o que a mãe fazia, ainda não existia Forno de Minas. Desejou que paçoquinhas fossem a base da cadeia alimentícia.

Você morou no meu bairro, e provavelmente ficava impressionada com a quantidade de velas acesas na capela da Igreja São Judas Tadeu, que iluminavam porta afora todas as trepadeiras em cor de ouro. Deve ter gritado alô na cúpula da igreja, só pra ouvir o eco mais lindo que já existiu.

Deve ter crescido nas ladeiras do Bairro da Graça, e agora aparece do nada, como um capítulo inicial de um livro muito familiar. Uma série nova em um cenário velho. Sorri quando se lembra da liberdade que tínhamos, da necessidade da rua como complemento, e não como medo.

Se lembra dos vizinhos que se reuniam na quinta pra jogar vispa e tomar cerveja Antártica Pilsen Extra. E nós, moleques, sentados olhando as tampinhas das coca-colas de 1 litro, que distribuíam bonequinhos do Capitão Marvel, Super-Homem, Aquaman e compania.

E você aparece, meu Deus, como um filme antigo muito querido, em cópia restaurada. Me lembra do Cine Brasil, e dos filmes dos Trapalhões.

E você sorri e diz que meus olhos não devem ser tão diferentes da época em que tinha oito anos. Brilho de criança, piscadas felizes e hiperativas.

E só posso pensar que não quero ser zerinho, deusinho ou primeiro em tua vida.

Eu só quero ser teu.


ADOLFO COLEN às 7:02 PM






Sexta-feira, Maio 02, 2003

Dreamboat

Existem noites em que sonho com rios caudalosos de superfícies plácidas. Noites que passo em um barco solitário, a deriva, totalmente sem controle de meu destino, acariciando a superfície espelhada com dedos que sentem o frio da madrugada entre águas de líquido e puro esquecimento.

Cidades subaquaticas parecem surgir pelo brilho das estrelas, refletidas no fundo desse espelho escuro que morre no mar. Imagino nomes de ruas de fundo lodoso, onde mamães d´água esperam com paciência resignada suas crianças se cansarem de brincar com botos e lambaris que cercam as fontes de luz noturna. Mas percebo, que mesmo em meus sonhos, essas imagens ficariam melhor desenhadas em livros de capa dura, lidos por pais terrestres a crianças com medo de mergulhar mais fundo nos mistérios dessa vida.

Enquanto esse pequeno barco dos sonhos caminha lentamente por esse espelho noturno, a noite esfria mais, e de repente todo o rio é coberto por uma neblina calma, fofa, parecendo algodão doce, trazendo um gosto de infância em minha boca. É engraçado como esse gosto pra mim sempre lembra amendoim torrado.

O barquinho roda pelo meio do rio, e me deito com as mãos atrás da cabeça, sonhando dentro do sonho em ser mais calmo. Ter mais tranquilidade para deixar as coisas se encaixarem, e não brincar com quebras-cabeças de peças intercambiáveis, que mudam suas bordas infinitamente tornando mais complicado ver a imagem inteira de minha emoção. A vida não aceita que forcemos combinações,, que empurremos encaixes que não combinam.

Deslizo pelo rio com esses pensamentos fugidios à beira de um despertar, escorregadios como a madeira molhada que acaricia minha pele. Enquanto acordo, ouço a cantoria distante das Iaras felizes por mais um dia de bons raptos de pescadores desavisados, e me pergunto distante se já fui algum dia um pescador.

Porque me sento na beira líquida de meus sonhos e nunca sei o que vou descobrir. Me armo de fé no meu curso, e estou pronto para despertar. De verdade.





ADOLFO COLEN às 10:56 PM






Quinta-feira, Maio 01, 2003

A carta abaixo eu fiz pra meu grande amigo Esteban, quando estava decidido a se casar com sua Carol.

Olá, amor. Bom dia.

Estive pensando por algum tempo, e te trago um anel. E com esse anel te desposo. Não, não fiquei maluco, e nem tomei café em excesso, como você insiste em me dizer, em toda manhã que temos o prazer de acordamos juntos. E sempre me pareceram tão escassas essas manhãs.

Eu quero me casar com você. É tão simples dizer isso, tão complicado de explicar porquê. Como essas decisões são tomadas. Como transformar isso em palavras, mas mesmo assim vou tentar.

Eu te amo, e acho que esse motivo é uma boa razão pra se iniciar qualquer coisa. Te amo simplesmente. e gosto de te ver acordar ao meu lado. Gosto que me faz sentir-me amado logo pela manhã. logo quando meu dia vai começar. E gosto do jeito que sorri quando conto uma piada querendo te impressionar. Amo o jeito com que toma as decisões, com aquele ar de que tudo é importante. E na verdade, perto de você tudo é.

Nem tudo são flores, e você sabe que não. Estamos sempre discutindo por nsas próprias razões, e às vezes, tenho que admitir,durmo com uma pontada no coração. Você acha que certas qualidades são defeitos, e que certos defeitos são qualidades. Mas isso é o que você acha.

E nada disso atrapalha o que sinto por você. As horas que passamos conversando, os dias nos beijando, as noites nos amando. E detesto ficar longe de você nos tempos em que fico longe de você. Me sinto mais pobre.

E por isso, com mais bom do que regular, com mais sol do que chuva, com uma vontade de te ter em nossa casa (que já é nossa no momento em que você pisou nela) sem hora pra sair, peço para que se case comigo. Por que quero te ter a meu lado, fisicamente, já que nas outras áreas você não sai de mim.

E te dou esse anel, que não tem início, e não tem fim. Sustenta ciclos e estações sucessivas, é um círculo perfeito. E quero do seu lado esquerdo, porque essa tradição é das mais belas. Os antigos achavam que o sangue do lado esquerdo ia mais rápido para o coração, por razões óbvias. E na verdade vai. Chega mais rápido, quente, e vermelho.

E quero que o use.

As escolhas só podem ser feitas assim.

Quer ser minha esposa?


ADOLFO COLEN às 11:47 PM








Perfeição

O único amor perfeito que conheço tem pétalas e vive cercado de abelhas na primavera. Muitos poderão dizer que pareço pessimista, desencantado. Alguns chegarão ao extremo de me chamar de desesperançado.

O que muita gente não percebe é que imperfeição não significa necessariamente algo ruim. A verdade é que é impossível agradar a todo mundo, impossível cumprir à risca a visão pessoal de cada um sobre o mundo. No mais básico, existem pessoas que gostam de chuva e outras que gostam de sol. Uns gostam de calor, e outros de frio.

E ao amar alguém, essas diferenças não somem de um dia para o outro. Engraçado notar que certas pessoas têm discussões enormes com seus parceiros por causa disso, quebram objetos de decoração, partem mesmo para a apelação pura e simples; e novamente isso demonstra a grande variedade de pessoas que existem nesse planeta: uns acham isso estimulante, outros uma enorme decepção.

Eu mesmo, vou dizer a vocês, não acho que poderia ficar com uma pessoa que concordasse comigo em tudo. Se até discordo de mim mesmo, o que dizer das pessoas que escolho (ou me escolhem) para conviver comigo? Eu não chego ao ponto de gritar e quebrar cerâmica, não me levem a mal. Eu só gosto de uma boa conversa, de ver os infinitos lados de toda moeda.

E se não existe amor perfeito além da flor, eu aceito isso muito bem. Podemos discordar de tudo, desde que concordemos na coisa mais importante: que gostamos um do outro.

ADOLFO COLEN às 7:08 PM








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