
ENCANTO
Eu queria te encarar como um encanto
Como um beijo doce calado
Uma brisa que canta em acalanto
Queria te abraçar num balanço
Onde as crianças somente brincam
Por fazer o que sabem melhor
E não esperar pelo pior
Como crescidos insistem em esperar
Eu simplesmente queria te ver com alento
Como uma menina do campo
Que cisma em morar em apartamentos
Só pra ver de mais perto o céu
Eu queria te ver com mais frequência
Que teu suspiro ao acordar
Acordasse também o amante em dormência
Em meu coração
ADOLFO COLEN
ADOLFO COLEN às
9:35 PM
Pacto Eterno, Pacto Antigo
Eu fui um menino, e cresci por essas ruas de Minas. Andei por terrenos baldios, vadiei por vários caminhos. Andei de bicicleta, subi ladeiras, e as desci embalado pelo próprio vento no rosto. Me perdi e me encontrei mil vezes nessas esquinas, uma profecia de nossas vidas. Somente corria, e quando me cansava me deitava e dormia. E sonhava com um outro dia na vida, sempre com mais um dia na vida. Sonhar pra mim sempre foi a antecipação de mais coisas a se viver acordado.
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Quando cresci mais andava pelas avenidas da vida, tentando entender todas aquelas pessoas que iam e vinham. Debaixo do braço discos, livros, cadernos de poesia. Na cabeça mil idéias, parcerias. Nenhuma pessoa sai da vida imune às parcerias, porque sem elas tudo se torna mais vazio. Sonhos altos demais para nossos ainda pequenos braços. Uma total incongruència entre o corpo físico e a imaginação.
Não queria ser astronauta, só queria me expressar. Esconder mensagens subliminares para conquistar uma menina no meio de um verso de um poeminha. Colocar na cabeça que não era sozinho no mundo, mas que me limitava a ser eu mesmo.
Foi época de colégio, em que de repente todos os meninos que andavam juntos criam suas afinidades. Gente se junta pra pensar em dominar o mundo, em que amigos fazem pactos secretos em prosa e poesia, de discussões sem sentido nas mesas das cantinas.Tempo em que sabíamos estar no topo das coisas, no fio da faca, na vanguarda da emoção.
Quando criamos certas obsessões que irão durar toda uma vida, certas teorias esquecidas. Época em que lambemos nossas primeiras feridas, tempo em que perdemos nossas primeiras guaritas.
Nenhuma proteção guarda o mundo.
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Adulto dirijo por essas estradas, e me lembro de meus amigos. De quem fez um pacto comigo. Todos que guardaram um pedaço meu e levaram pelos mais diversos caminhos. De onde começa uma rua, sobrevem uma avenida. Delimitam-se atalhos, e o mundo se torna uma curva enorme que engole sua própria partida.
Gente que se espalha pelos pontos cardeais, levando aquela parceria consigo. Colocando minha mente nos quatro cantos da terra, tornando o planeta meu umbigo.
Meus amigos, onde estão, eu os levo comigo.
É o nosso pacto eterno, nosso pacto antigo.
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Para vocês. Vocês sabem. É só uma piscadela e tudo fica subentendido.
Abraço.
ADOLFO COLEN às
3:25 AM
O Sandro me deu a idéia, e adoro música demais para não ficar tentado...Portanto, vou começar a escrever sobre discos que têm lugar cativo em meu CD Player. não sou crítico musical, portanto me perdoem o amadorismo. E o primeiro é...
Walter Franco - Revolver (1975)
Esse disco vai aonde eu vou, desde que o ouvi pela primeira vez. Walter Franco é considerado "difícil" para muita gente, devido ao experimentalismo de sua música. Mas em Revolver esse experimentalismo, apesar de ainda extremo, flerta com um veia pop-rock.
Me parece (e isso é uma interpretação particular), que o disco teria como melhor capa uma serpente engolindo o prórpio rabo, pois o renascimento, e os ciclos são uma constância nessas músicas. Desde o jogo de palavras de Eternamente, em que uma mesma frase significa várias coisas, até Mamãe D´´agua, onde palavras são adicionadas a uma outra frase, significando algo diferente a cada instante, e depois voltando à essa mesma frase inicial.
É muito confuso de entender escrevendo-se. Portanto aí vai Mamãe Dágua:
Iara Eu Te Amo
Iara Eu Te Amo Muito
Iara Eu te Amo Muito Ma(i)s
Iara Eu te Amo Muito Mas Agora é tarde
Iara Eu Te Amo Muito Mas Agora é Tarde Eu Vou
Iara Eu Te Amo Muito Mas Agora é Tarde Eu Vou Dormir
E o disco segue desde a batucada de Partir do Alto/Animal Sentimental, até a pura magia de Cachorro Babucho, a minha preferida de toda a obra de Walter Franco.
O disco termina com Revolver, que revolve (perdoem o trocadilho), num eterno ciclo de consequencias e retorno.
Enfim, um de meus discos preferidos: bonito, esperto, lirico. E que vale a pena experimentar.
ADOLFO COLEN às
10:51 PM
Sobre Pertencer
Você é tão livre nesse sol pela manhã, abrindo os braços com cara de preguiça, fazendo charme com os cabelos que escorrem, fazendo tipo com os lábios que apertam.
Nem parece que à noite não conseguimos dormir. Nenhuma pista de que ontem tudo o que você queria era fugir. Deixar pra trás o que te assusta, o que muda os compassos tão organizados e confortáveis de seu coração.
Às vezes acho que você pensa ter nascido sem cordão umbilical, uma criatura aquática que um dia decidiu nascer, por pura escolha ou mesmo tédio. Que queria conhecer pra que serviam os seus pés.
Mas que simplesmente não achou ter pés ser o suficiente. E resolveu buscar asas em algum lugar, mesmo que sejam as imaginárias e prateadas asas de seu coração. Resolveu deixar teu nariz te levar, observar paisagens uma vez na vida, e realmente não aprendeu a olhar pra trás.
Deixou rastros sempre onde o mar podia lavar. Guardou despedidas como antigas cantigas de ninar.
Me achou sentado cansado atrás de uma mesa de bar.
Deixou a mochila do meu lado, sentou-se levemente, parecia que não sabia ocupar espaço algum. Sorrindo leve, como o sorriso das esfinges, falando manso, como a voz de rios temporários correndo em matas virgens. Onde ninguém passou antes, nem nunca passará.
E suas lendas preferidas, conforme enrolava seus cabelos ao sussurrar, envolviam cidades perdidas em ruínas antigas, renascidas sobre a luz do luar.
Preferia a noite que o dia, o silêncio que a euforia.
Pegou minha mão, e se houve um carinho foi mais o cheiro e o beijo do mormaço, que uma tempestade elétrica que acompanha o desejo, foi mais uma melodia que uma canção.
Foi mais um formigamento do que um comichão.
Se houvesse uma maneira menos racional de explicar do que faço agora, desconfio que seria mais compatível, mais verossímil. Mas tenho que pôr em palavras, e não em sensações.
E tudo acaba, você diz, numa manhã como essas, com a esperança intrínseca das seis horas da manhã. Tudo termina em um abrir de braços que querem envolver os ares leves e os sons delicados da hora de acordar. os sinos de vento que dizem tudo e não escutam nada, parecem simulacros de asas. São preâmbulos e promessas de nós dois, de onde a estrada bifurca e onde ela deve terminar.
E quando te abraço, você treme de uma maneira e gagueja. E eu nunca esperava nada além disso, não via outra maneira disso acontecer. Você é tão livre que isso a torna previsível, ao mesmo tempo que te fecha para o que pode acontecer.
Porque você não entende que meus braços não te envolvem com o objetivo de te prender. Eles são somente instrumentos de uma parte minha que dou pra você.
Para que você possa levar um pouco de mim aonde quer que você vá.
Você é tão livre, que custa a entender. Não existem correntes se você sabe pertencer.
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Texto que escrevi para nosso Hospício, e que após discussão sobre cinco sentidos e poesia descontrutivista com a Tícia, resolvi colocar. Talvez seja uma boa idéia colocar essas coisas em algum espaço em separado...Sei lá
ADOLFO COLEN às
2:16 PM
Yeah Yeah Yeahs...Grande nome pra uma banda. Our Time é provavelmente a coisa mais legal que ouvi nos últimos tempos. Punk, psicodelia, Velvet Underground. Vale a pena procurar essa música. E o resto do EP. Já estão causando burburinho, e com certeza vão fazer ainda mais. Karen O, a vocalista, já é considerada uma das mais carismáticas do rock atual.
Canta com doce ironia: It´s our time to be hated...
ADOLFO COLEN às
1:33 PM
Violões tocam melodias preguiçosas, abertas, feitas pra dançar no ar sem peso algum. A menina de cabelos longos canta de olhos fechados, com a mão no peito, como se tateando seu coração. Atrás dela há uma vidraça enorme de onde se vê o jardim, e pessoas conversam com sorrisos no rosto e pés seguindo o ritmo da noite.
Meu cigarro escreve acima do cinzeiro frases de efeito, em letras cursivas e caprichosas de um amor perdido. Caminha até o teto com meus medos, se espalhando por todo o bar.
Mantenho meus braços no balcão, com a barba enorme, irreconhecível até para meus amigos. Cabelos grandes, já sem corte, e olhos com impressão de calma. Mas eles brilham em faíscas silenciosas e lentas, como à espera de um grande incêndio. Escondem fluido de isqueiro, escondem lava lamps, o piromaníaco em mim.
Seguro o copo gelado entre meus dedos, e me olho longamente no sépia de um scotch. Uma foto fluida de alguém que se mantém invisível, em certas noites, para se entender. Segura as mãos de seu destino, e nelas quer ver quando a linha da cabeça e do coração vão se juntar.
Quero o impacto total. Quero a obliteração dos sentidos que somente um grande amor pode dar. Quero incendiar as barreiras, e correr para os canteiros sem olhar para trás.
Correr planejando um curto circuito entre as linhas da palma de minha mão.
Violões e notas dissonantes chegam ao balcão e me envolvem, retesando as cordas frouxas de meu coração.
ADOLFO COLEN às
11:55 PM
Me acostumo a andar por esse passeio e cheirar as flores das casas da praça. Ando tendo saudades de tudo. Pecebo a noite que se antecipa por um vento frio, e por uma queda súbita da luz.
Viviane me conta que a essa hora do dia está normalmente dormindo com as janelas abertas, e que nada é mais incômodo que dormir com o dia claro e acordar com ele escuro. Dá a sensação de que nada melhorou, que não é um novo dia. Na realidade é somente o fim de outro dia.
Luis me disse por esses dias que tem observado a noite chegar do seu trabalho. Ele fica sentado sob sua prancheta, observando por cima dos outros prédios o sol se esconder através de sua enorme vidraça.
Letícia me comenta que tem sempre levado Minnie, sua cadela, para a parte alta da cidade à tardinha, aonde ela dorme em seu colo, e acorda uivando para a lua.
E eu fico andando perdido por esse passeio, que vai se tornando mais escuro e vermelho à medida que o tempo passa. Cheiro flores dos jardins e ando sentindo saudades de tudo.
ADOLFO COLEN às
5:25 PM
Entre o Hoje e o Amanhã
Esse sol deixa minha boca seca, e entre cada rachadura de meus lábios se escondem mil sedentos. Entre a língua grossa e os dentes largos mil palavras se formam sussurrantes, pedindo água, abrigo, sombra, trégua. Pedem que o tempo pare para que eu coloque tudo em pratos limpos, em copos límpidos, em sentimentos translúcidos.
Debaixo desse dia quente peço perdão à lua, pela falta de atenção. Peço desculpas pela ingratidão. Iluminou o caminho de meus braços, a trilha de meus dedos. Beijou o nervo exposto, mostrou seu rosto para que eu pudesse ver. E eu enxerguei.
Iluminou através do seu vestido, mostrou o seu corpo, e eu quis ver mais. Tirou o véu das sombras, além das coisas, e eu me perdi ali.
A menina com mares de tranquilidade em seus olhos, como as águas escondidas em seus vulcões extintos. Portadora de fases mais complexas, de linguagem desconexa, e você clareou. Desvendou mistérios para criar mais alguns. Piscou os olhos entre as nuvens passageiras, com sua estroboscópica inconstância me acalentou.
Presenciou o que falei entre os silêncios, o que toquei entre seus seios, um cordão com um retrato seu.
Escolheu sua montanha preferida para dormir, como se tudo fosse obra do destino, desvedando o que a natureza não consegue perceber. Iluminou a noção de que o destino é somente desígnio do querer.
A menina com mares de incerteza em seu corpo. Portadora do beijo recheado de razão, dos caminhos mais tortuosos no coração. E sob sua luz quero percorrê-los todos.
O sol queima meus cabelos, e entre cada tom se escondem mil segredos. Minha pele inteira se inflama, mas não perde a memória de cada sombra. Pressente entre os poros cada toque.
Enquanto caminho por aqui, espero te ver de novo. Entre os beijos de teu beijo. Entre o hoje e o amanhã.
Na terra destinada aos amantes, entre o hoje e o amanhã.
ADOLFO COLEN às
3:52 PM
HOTEL CORAÇÃO
Meu coração é um hotel
Com hóspedes de uma noite
E sem inquilinos certos
É a certeza da incerteza
Como ela me disse uma vez
Em suas incontáveis tristezas
"Eu só tenho uma certeza:
a de um copo na mesa
Pra eu me afogar"
Meu coração é um hotel
Cheio de quartos desertos
E de correntes de ar
É uma placa de neon
No meio da noite
É a dificuldade de amar
Adolfo Colen
Escrevi isso há quase dez anos...E ainda gosto, por me lembrar o que significava pra mim na época.
ADOLFO COLEN às
2:23 PM
Existem dias em que sorrio, e imediatamente meu coração aperta. Não necessariamente nessa ordem. Saio andando calmamente até meu carro, que liga o motor, acende os faróis, como um animal acordando, preguiçoso, ronronando pelas ruas sem destino certo.
O céu decide chorar sem avisos, sem barulhos, somente o chiado leve de estatica urbana. Dias em que as ruas se tornam desertas, preenchidas somente por folhas de papel que dançam por forças invisíveis do vento.
As luzes de antigos casarões se acendem, dando a impressão de que grandes olhos quadrados observam todos os nossos passos. Máscaras de concreto engolindo pessoas com a promessa de calor e chocolate.
Toca no rádio uma música de Jorge Ben: Ela vem toda de branco/toda molhada/despenteada/que coisa linda/que maravilha/é o meu amor.
E ela entra de negro, sob o guardachuva, cabelos claros presos em um rabo de cavalo. Escorrega as mãos sobre minha coxa, faz um muxoxo, e muda a estação.
"Detesto Jorge Ben."
Começa a tocar It´s All Over Now Baby Blue do Dylan no som, e ela canta todas as estrofes sem errar um verso. E me pede pra acelerar.
Que coisa linda, que maravilha, é o meu amor.
ADOLFO COLEN às
5:32 PM
Post antigo do Ex-Hipocrisia
Na Corda bamba
Vamos falar a verdade. Aquela que arde, que passa na boca como pimenta. Aquela que esquenta.
É como ver as coisas de uma lente, que ao invés de aumentar, distancia. Todo mundo quer ver a maioria das coisas de uma certa distância. Quer assoprar, mas não curar. Todo mundo quer sugerir, mas ninguém quer dizer pra valer.
E eu só fico vendo essas coisas que andam pelo meio. Que fogem aos extremos. Que nunca querem se desequilibrar.
Quando a vida é puro desequilíbrio.
Quando a balança nunca é a universal.
Eu sempre pensei, quando jovem, que o centro era onde havia a melhor opção. Que o olho do furacão era onde a calmaria se localizava. E eu querendo ficar parado, no meio dos ventos de um furação, parado, sem tombar. Porra, que ilusão!
O tombo faz parte da vida. Já dei com a cara no chão. O nariz sangra, aquele respirar de terra molhada, aquela tosse sentida, aquela dor incontida. A dor doída.
E me levantei, sacudi a poeira, disse o nome dela, com um sorriso faltando dentes. Disse o nome dela, com um sorriso inocente. Pra nunca mais ter que dizer. Pra nunca mais ter que ceder. Não a essa paixão, não vou ceder mais à essa paixão, quando tenho tantas outras pra ceder. Tantas outras pra dar certo.
Tudo que quero é que dê certo. Todo mundo quer que dê certo.
Mas hoje não. Talvez não. Talvez sim. Mas, sempre, infinitamente, incondicionalmente assim...
Eu com as minhas coisas. meus vícios, meus defeitos, minhas devocões.
Você com seus mitos, tuas sinas, teus atritos, tuas devoluções.
Se devolve pra mim, como se nunca tivesse partido. Que ser o centro de meus braços. A temperatura tépida que respiro. Quer ser o conforto, minha cama. Me diz que me ama.
E eu só abro os braços como que numa foto. Uma tentativa de equilíbrio. Como na corda bamba.
Abro só braços e sorrio. Dentes faltando, poeira nas mangas. Dizes que pareço um mendigo.
Mas meu amor, não sou eu quem peço abrigo.
Vamos falar a verdade como pimenta: só peço o que me é devido.
Meu orgulho, meus defeitos, meu desequilíbrio.
E parto sem nenhum ruído.
Só a poeira que marca o ar
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Salvando pensamentos do passado, talvez para somente rir deles depois.
ADOLFO COLEN às
12:56 PM
Eu, nesses dias de trovões sem chuva, realmente admiro e invejo a tua fé.
Nesses dias de promessas meio que sussurradas em desleixo, admiro tua fé.
Tua crença insensata nas palavras. Tua certeza absoluta em necessitar de um guarda-chuva.
Porque eu realmente acredito em pular poças que refletem lâmpadas de rua. Acredito piamente no Jack Daniels que arranha minha garganta nas noites de sexta-feira. E no beijo no rosto que desliza pela boca, no antigo desencontro de desejo e timidez.
Acredito porque sinto, seja na forma de sapatos molhados, um calor na garganta, ou um arrepio na espinha. Acredito no que minhas mãos tocam, sentem texturas, e imaginam tudo mais que vem atrás.
E realmente, minha querida, é preciso acreditar no que se esconde atrás. Atrás das figuras, como uma velha namorada me contava. Atrás do véu da noite, on the dark side of the moon.
Porque eu te vi de novo, sem saber ao certo se queria isso. E me perdi em tantos detalhes de teu corpo, que era impossível unificar meu desejo em uma única figura. Você se torna luxúria multifacetada, um cristal italiano refletindo várias partes do que sou.
E simplesmente não consigo definir o que sou pra você.
Se pelo menos o mistério não fosse sempre uma questão de fé na obscuridade.
Se pelo menos a fé não contasse principalmente com a obscuridade dos mistérios.
Então, não posso fazer nada além de acreditar que hoje vai chover, que as palavras irão me salvar.
Acreditar que ainda vou ter você.
ADOLFO COLEN às
1:48 AM
A Vaquinha Eugênia me pediu que fizesse um top 10 de meus filmes prediletos. É um trabalho árduo, mas espremi até sair. Se lembre, meu querido bovino de duas cabeças, que sou uma pessoa bem mais pop que você.
1. Sonhos - Akira Kurosawa
2. O Reencontro - Lawrence Kasdan
3. Paris Texas - Wim Wenders
4. Beleza Americana - Sam Mendes
5. Jules et Jim - François Truffaut
6. Tudo Sobre Minha Mãe - Pedro Almodovar
7. Cidadão Kane - Orson Welles
8. Obscuro Objeto do Desejo - Luis Buñuel
9. O Tigre e o Dragão - Ang Lee
10. Annie Hall - Woody Allen
Cada um, cada um...Muuu...
ADOLFO COLEN às
1:12 PM
Fico pensando em quantas noites já passei em claro no escuro da noite. Quantas músicas já tocaram por essas caixas, beijando minha mente com um leve entorpecimento.
Sonhar de olhos abertos às vezes é a única maneira de se lembrar.
Sinto falta de grandes relógios barulhentos, dos sinos da igreja, que como arautos do tempo se fazem notar pela madrugada. Das luzes fluorescentes que zumbiam e bocejavam como trovões preguiçosos. O mundo hoje em dia nos tem privado de sons, de sensações, da linha inexorável do tempo.
Tudo acontece muito rápido, e se olharmos para trás, podemos bater de frente na última grande novidade. Parece que tudo anda sendo fabricado para apagar o passado, indicar o futuro. Sei que só temos o presente pra viver nele, e não reclamo. Tem sido assim desde que o primeiro homem disse "eu existo", porque no segundo seguinte ele falou "eu já fui assim".
O problema todo é que eu me lembro do que era ser criança, porque uma parte de mim ainda é assim. Nunca reneguei meu passado, porque ele também foi uma parte de mim.
Encontrei uma velha amiga, e ela me disse que me tornei um bom adulto, uma pessoa bem diferente. Menos maluco, acho que era o que ela queria dizer. Quando o que ela não sabia ver é que cicatrizes não são pele nova. Por baixo delas ainda se esconde a mesma pele eriçada que sempre me recobriu.
Eu não posso me tornar uma tabula rasa, me entenda. Essas águas já foram turbulentas, já foram calmas, já guardaram anos e prevêem outros que virão. Observo o futuro chegar rápido, e a criança em mim adora se surpreender com ele.
Mas o adulto sabe que sem o que viveu, nada disso na verdade é um aprimoramento. Somos feitos de camadas, e tudo tem relação. Nas noites em claro me lembro do que sempre fui, e penso em comprar um relógio que faz tique-taque, para colocar junto a meu computador. Não existe futuro sem uma história.
Minha música é de violões, minhas palavras de saliva. Meu meio é digital, mas minhas emoções são analógicas.
Porque meu futuro é feito em Tecnicolor. É muito mais bonito assim.
ADOLFO COLEN às
12:23 PM
Lendo o livro de Márcio Borges sobre o Clube da Esquina, eu me sinto em casa. Porque estou em casa. Toda essa história que se passa pelas ruas da cidade que eu amo. Só quem nasceu aqui em BH sabe realmente o que significa ouvir a música Ruas da Cidade. Só quem passou por aqui sabe que não são tabas de índios que se intercalam, mas sim pedaços da história de quem vive aqui.
Me lembro de um show do Milton Nascimento há 6 anos atrás, na Praça do Papa. Essa praça se localiza na parte mais alta da cidade, de onde se vê as luzes de milhares de pessoas piscando em andares e mais andares de pequenas estórias desconhecidas, bem particulares. Um concerto de graça, para centenas de pessoas que enfrentaram o frio desse lugar, só pra experimentar um pouco de música.
Bituca entra no palco, e solta quela voz límpida, clara, calma, e conquista novamente todo mundo. Não que realmente precisasse, já que sabe o quanto a gente gosta dele por aqui. Pessoas sentadas no gramado da praça, casais em pé abraçados, pessoas de todas as idades cantando letras que parecem fazer parte de nosso código genético. Ser do mundo, ser Minas Gerais.
Vejo pessoas com os olhos marejados, meninos brincando de mãos dadas com seus pais. Meus amigos sentados juntos, somente ouvindo, pensando, sentindo algo que não realmente sabem como tocar, mas que nos toca de qualquer maneira. Minha irmã mais nova nunca havia participado de um show desses, e a sua maneira cool de ser, sorri daquela maneira descolada que só quem a conhece sabe o que significa. O frio se torna, com certeza, somente um detalhe que enriquece, que abraça a gente como a um velho amigo.
No fim do show entra um coral de crianças, e as músicas se tornam mais fluidas, mais como brincadeira de ser adulto nostalgico. Dá pra perceber que certas coisas não voltam, mas que foi bom vivê-las. Canta Canção da América, e cantamos juntos. Canta Maria, Maria, e o sorriso de Maria Raquel aumenta um pouco mais.
No fim do show, uma declaração de amor retribuído, um apagar de luzes,e ficamos somente com as luzes da cidade a piscar cúmplices com o que sinto. Enquanto desço a Avenida Afonso Pena, conversando calmamente com meus amigos, percebo que não existem tristezas suficientes para me derrubar. Pelo menos não naquele dia. Todo o peso que carregava naqueles dias ficou mais leve no fim daquela noite.
Nós amamos poucas coisas nessa vida. Mas quando esse amor é pela música, está aí uma paixão que dura a vida toda.
ADOLFO COLEN às
9:54 PM
Quando passo por essas estradas, sinto uma necessidade absurda de parar em acostamentos. Tirar fotos dos caminhos do passado, observar os vales e as montanhas já vencidos. Quero a paisagem sob minhas rodas, o próprio chão por onde me perdi.
Muita gente acha que isso é pura nostalgia, ou que é um profundo esquecimento. Que quero simplesmente ter lembranças de tudo, para não ter que me esforçar, e me lembrar.
Na verdade eu só quero olhar para todos aqueles lugares, e comparar o que sentia então com o que sinto agora. Cada foto é somente uma interpretação, um instantâneo, uma lembrança que nunca se mantém a mesma dentro da gente. Simplesmente a gente muda, e tudo que ficou para trás também se transforma em algo que você não sabe realmente interpretar.
Quando saí da vida dela, eu sabia que a casa não tinha como se manter a mesma. Certas redecorações são necessárias para corações partidos. Os objetos parados criam poeira, e mesmo sob os móveis pesados o chão muda de cor e consistência. Coloca-se um quadro novo na parede, flores frescas em um jarro, travas novas pelas portas.
Fechaduras por onde não se espia, esperando o dono das chaves certas.
Por isso não espero as lembranças intocadas, não tenho essa ilusão. Elas se misturam em nosso sangue, diluem em nossos pensamentos, provocam a formação de um novo amálgama. Acho que essa é a real definição de sangue novo, mercurial. Pulsa em minhas têmporas, esquenta minhas mãos, formiga ao som desse motor.
Me lembro daquela foto em que você sorria, segurando as mãos contra o sol, em um vestido que já se esgarçou.
Dessa foto que guardei, percebo a luz daquele momento, a incidência de uma emoção. Nenhum sorriso se repete realmente, mas outros virão.
A estrada segue os contornos de uma montanha ainda distante, e meu coração precisa de mais velocidade. Casas que antes pareciam de brinquedo vão sendo tingidas de realidade.
E eu só quero chegar lá.
ADOLFO COLEN às
9:50 PM
Se você resolver segurar minha mão agora, pode perceber que elas tremem levemente. Vibram no ritmo da música em meu coração. Um diapasão buscando a afinação certa. Muitas vezes o mundo é assim, um tambor invisível que não obedece nossa regência, que atravessa a música, e simplesmente não pede desculpas depois.
Fica claro após alguns movimentos que não tenho essa partitura. Que me sinto perdido entre tantas sensações.
Se você colocar a orelha em meu peito, vai saber que bato descompassado. Mas sabe que, pelo menos, eu bato.
Tum. Tum. Tu-tum.
ADOLFO COLEN às
9:03 PM
Mapas da Cidade
Fico pensando como você escolhe os momentos pra reaparecer. Desconfio que usa de matemática aplicada, ou simplesmente caprichos de física quântica.
Com o sorriso mais misterioso no rosto, o andar mais cadenciado da festa, o vestido mais curto da noite. Você adora suas coxas, talvez mais do que qualquer dia eu tenha adorado.
Age como se um holofote a seguisse por onde caminha. Bebe como em um comercial de Campari. Beija como nas novelas da oito, tantos simulacros do desejo que realmente não sei onde começa a língua e onde termina o texto.
Chega de mansinho, colocando a mão em meus ombros, num abraço de contato total. É como se teu corpo dissesse: esses são meus seios, que respiram profundamente. Aqui estão meus quadris, que sugam como buraco negro teus planetas. Sou a Via Lactea e as Nebulosas. A entropia de teu coração.
O amor como opção.
Mas eu sei, e você também sabe que não se ama por opção. Que se ama encurralado, encostado de costas em um canto da sala, que se ama por total e completa falta de opção.
Que se ama por vocação.
Então você fala mais um pouco, tentando capturar a atenção perdida. Brinca com meus cabelos, fazendo redemoinhos, que em tua cabeça afogam navios de mágoas e abalrroam encouraçados de proteção.
E você me diz, de repente, que eu te amei por por obrigação.
Isso realmente me surpreende.
Veja bem, porque também não se ama ninguém por obrigação. Se ama contrariado, ressabiado, até mesmo aterrorizado.
Ama-se por devoção.
E devoção, minha querida, não se separa nunca da fé.
Da fé que me persegue, desde moleque.
A crença de que minha vocação descansa sorridente em uma menina que encontrarei na esquina de lá.
Aquela esquina mesmo, entre as Ruas do Futuro e das Possibilidades.
Na alameda da perspectiva, no centro do sonhar.
ADOLFO COLEN às
12:27 AM
Texto escrito após ver pela primeira vez O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Reflexões do consciente inconsciente, desconfio.
Amélie
" Life is But a Deam "
- Bauhaus, do Álbum The Sky´s Gone Out.
Romântico desenganado pelos médicos. Língua afiada que corta suas próprias gengivas.
Ouvinte obsessivo de Revolver, de Walter franco, um discaço esquecido. Em adendo, ama as coisas esquecidas. Uma música que diz: Feito gente/ Feito fase/ Eu te amei como pude/ Fui inteiro/Fui metade/ Eu te amei como pude.
Amou como pôde. Pelo menos é o que pensa, nas horas em que pensa nos fracassos do passado. Portanto, se culpa demais. Adora a palavra portanto, pois é muito afeito à conclusões. Mas reabre esses casos sem o menos pudor, pois também ama os adendos.
Ao andar de carro, ouvir uma música, ver um filme, pensa demais. Como o amigo Rodrigo Jardim, se sente feito de nostalgia. Às vezes de um tempo que nunca viveu. Queria ser adolescente nos anos 70. Queria ser adolescente no início dos anos 80. É ainda adolescente no ano 2002. Acha que não vai superar.
Se sente de manhã, em dias ensolarados, ao sair de casa um pouco como Jack Nicholson. Principalmente em As Good As It Gets.
Viciado em nicotina e em músicas cheias de guitarras estridentes. Uma mudança de acordes, em certos tons mágicos, o fazem derreter por dentro, assim como Nick Hornby. Leu Alta Fidelidade inúmeras vezes.
Ama os cachorros sem dono. Se sente como um cachorro sem dono.
E hoje à tarde viu o Fabuloso Destino de Amélie Poulain, e simplesmente sorriu, com mil redemoinhos e uma sensaçao de ter tomado vinte doses de conhaque nas vísceras.
Porque é um filme que conta sobre mistérios. De como é bom vivê-los, de como é melhor descobrí-los.
De que uma hora é necessário mergulhar no desconhecido. De como em algum momento se torna imperativo amar alguém. Não porque a gente espera a vida toda por um amor.
Mas simplesmente porque não esperamos a vida inteira, talvez seja o contrário. Talvez a vida espere, olhando por trás de nossos espelhos. Fique escondida nos olhos de nossa imagem, fazendo a sombra de nossos lábios, se preparando pra se iluminar em um sorriso.
Talvez a vida nos observe por trás de nossos olhos. Torcendo, mordendo os lábios.
Dizendo pra si mesma: quando esse imbecil vai se tocar?
Porque o meu destino se esconde nos acontecimentos.
E uma hora vai acontecer com você.
Ser um romântico terminal. Um amante reconciliador. Gostar das noites estreladas. Sonhar com a constelação de Escorpião atrás das noites chuvosas.
Fazer as pazes com o seu coração. Desligar o cérebro uma noite, e se deixar levar. Deixar a chuva molhar, o sol esquentar, o amor complicar.
Deixar a vida te achar.
E ser feliz.
ADOLFO COLEN às
10:06 AM
Toda a noite é revestida de mistério. Quando o dia fica menos nítido, tudo parece se tornar mais espaçoso à meia-luz. Inclusive as intenções.
Seus olhos refletem o céu urbano, o que lhe cai bem. Revela que seus sentimentos são menos visíveis aqui, ofuscados pelas luzes da cidade. Espelham um poço fundo, de onde não posso ler a superfície das águas. Tudo que posso fazer é jogar uma pedra, e ouvir a agitação das águas. Talvez um tremor na voz, ou um gesto com as mãos que traia sua insegurança.
Tentar ler os sentimentos de alguém talvez seja uma das atividades menos recompensadoras dessa vida. É um trabalho árduo, que mesmo feito com amor, muitas vezes não traz resultados exatos. Pode inclusive confundir mais que conciliar.
Por isso prefiro sentir você silenciosamente, pegar suas pequenas mãos entre as minhas, contar como foi meu dia, lhe beijar sem restrições. Ver a alegria que tem em me dizer as coisas mais normais do seu trabalho, a excitação de mais um dia fazendo o que gosta.
Ao ver isso percebo que não há como terminar um dia tão bom fazendo-se o que não gosta. Não há como se encontrar alguém por pura obrigação, e ainda assim ter tanta energia pra tentar me entender, pra me escutar. mesmo não lendo seus olhos, percebo o básico.
Pois você, como a noite, é cheia de mistérios. Mas mesmo sob o céu da cidade as constelações mais próximas ainda brilham.
ADOLFO COLEN às
9:06 AM
Disse
Você me disse com um amor
A distração das mãos dadas
Disse com a deliberada voz
O que nunca precisou falar
Incauta mas ainda contida
Sofrida palidez dos lábios
Disse com essa sólida
Com essa firme indecisão
Encanta como a língua anda
Como seda no céu da boca
Um sopro como um assovio
Você disse sem perceber
Com um ar de madrugada
E com timidez deslumbrada
Você sorriu e disse
Te vejo outro dia por aí
ADOLFO COLEN às
11:30 AM
Lua Nova
Quande sente falta de alguém
Sente falta de mim
Quando a noite esvazia
Quando um não vira um sim
E você acorda de repente
Aonde não queria estar
Quando o travesseiro dorme vazio
Quando o sol ofusca o luar
Enquanto os amantes derramam promessas
E é do meu lado que você quer estar
ADOLFO COLEN às
11:24 AM
Se eu pensar demais, faço menos do que eu devia. Não que eu sinta a necessidade de sempre seguir a corrente intuitiva, mas sinto que deveria mais.
O amor não é algo que necessita de manutenção preventiva. Não tem período de garantia, mas também não usa pilhas. Se mantém funcionando, ou perde a energia das maneiras mais subjetivas. Não sei de onde vem o que sinto, para onde vai, que caminho vai percorrer.
Se existisse um mapa do coração, provavelmente seria de escalas totalmente indefinidas, sujeito a instabilidades. Uma geografia mutante, com lugares para planícies extensas, intercaladas por cordilheiras escarpadas. Uma torre para Rapunzel, castelos imaginários para príncipes e sapos. Lagos profundos para Iaras, florestas para curupiras.
Porque o amor não é folclore, nem conto de fadas. Mas ele existe também naquele pedaço da gente que se imagina, que se recria, que quer acreditar. E que acredita.
Acho que por isso resolvi fazer o cardiotopia. Para percorrer um pouco de cada lugar inconstante do que a gente chama coração. Para caminhar entre o universal e o particular.
Porque se a gente entende que a gente sente, pode um dia compreender os sentimentos dos outros. Não explicar, porque esses sentimentos desafiam as leis conhecidas. Acontecem como as coisas na vida acontecem.
De repente.
Por isso agradeço quem vem vindo aqui, e deixado os seus comentários. A gente vai trocando, dividindo e claro, adicionando.
E para Sandro, meu amigo há mais de 15 anos: a medicina não me deixou insensível. Ela só me fez questionar mais. Como você mesmo disse um dia para aquela menina do futuro, tão presente em sua vida agora: Desde pequeno eu quero, vem então!
ADOLFO COLEN às
10:42 AM
Quem não tem problemas com o blogger levante a mão...
ADOLFO COLEN às
11:58 PM
A solidão acena do vidro da janela, desdenhando do calor de dentro de minha casa. Me chama pra fora, quer que eu sinta o frio, que eu dê minha cara a tapa. Se aperta entre os batentes da porta, quer afugentar as visitas, interceptar as notícias. Quer que eu desista, que eu faça de conta que serei infeliz assim.
Bate no vidro e mostra que minha sala não tem móveis, que meu quarto não tem quadros, que minha escrivaninha não tem porta-retratos. Ri de minha taça vazia, da garrafa de vinho que nunca termina.
Solta beijos pelas mãos frias, abre os braços querendo colo, pede algo que não posso dar.
Mostra a porta pela qual a menina saiu, levando suas roupas, sua escova de dentes, o meu coração. Aponta para a carta na geladeira, para a assinatura firme, pela falta de emoção.
A solidão raspa os pés no tapete, sempre se preparando para entrar. Se acha a única no mundo de quem eu possa precisar, quer ser minha desde a hora em que eu acordo até o momento em que for me deitar.
Mas não consigo deixá-la entrar.
É que enquanto eu existir pra mim mesmo, enquanto eu puder me fazer compania, não preciso me desesperar. Enquanto tiver amigos na vida, sempre vai existir uma mesa em um bar.
Enquanto houver amor nessa vida, a solidão vai ter que esperar.
ADOLFO COLEN às
7:30 PM
Você demora para se arrumar. Se senta na frente do espelho, e me faz assistir. Para ver o show de mímica, para tentar entender seus rituais. Se coloca na frente de seu duplo, e sorri com eterna e simultânea reciprocidade. Cada ato repetido em sincronia, que mais parece um trabalho de amor.
Coloca substâncias misteriosas em seu rosto, depois luz e sombras, como a fazer uma pintura impressionista. Adora o básico, diz num suspiro. Coloca uma máquina de tortura chinesa em seus cílios, algo como um quebra- nozes. Depois pincela as bochechas, deixa o cabelo se soltar, e observa.
Se vira de um lado a outro, os olhos percorrendo cada poro retocado, cada curva angulosa. Os olhos com seus contornos mais nítidos, a boca mais da cor da pele. Mais duas ou três pinceladas, e está pronta. Se levanta da cadeira, me olha de soslaio. Pega minha mão, me leva embora. Diz, quase sussurra, em meu ouvido:
- Gostou do resultado?
- Claro que gostei. Mas ainda prefiro te ver acordando, sem maquiagem.
- Você é um bronco mesmo. Não se importa com o sutil, não dá valor.
- Eu dou valor a tudo. Inclusive às diferenças entre eu e você. Você, por exemplo, preferiria se eu andasse mais arrumado.
- Mas é claro. Já cansei de dizer que você parece mais um bandido nessas roupas.
- É que te amar é um trabalho sujo. E vestido assim me sinto o mais indicado pra fazer.
Ela gargalha em seu baton cor de pele. O delineador faz seus olhos parecerem mais fechados, mais adoráveis. Me abraça,e diz que desse jeito vamos nos atrasar.
Sempre nos atrasamos.
ADOLFO COLEN às
12:32 PM
Certas coisas não foram feitas pra entender mesmo...
ADOLFO COLEN às
11:51 AM
Essa tirinha eu achei no belíssimo blog Menina no Espelho, e me fez ficar com os olhos marejados...
ADOLFO COLEN às
12:02 AM
A guerra começou, e só posso dizer dois clichês: o homem é o lobo do homem. Nessa história não existem mocinhos.
O que me deixa triste é ver gente morrendo inutilmente. E não pelo que acreditam, mas sim pelo que os outros acreditam por eles.
ADOLFO COLEN às
11:57 PM
Quando eu ouvi do Sandro sob a vez em que eu deixei uma carta para as flores no canteiro, no pátio da escola, fiquei nostálgico. Com certeza um pouco desconcertado. Sabia do que eu havia feito, sabia que devia haver algum significado para minha mente adolescente aquele melodrama todo.
Se eu me lembro bem, a carta foi colocada por mim no recreio, em um pátio escondido na parte mais interna do Colégio. Era lá que havia um viveiro para pássaros inexistentes, e uns banquinhos onde os casaisinhos iam pra namorar. Acho que na época tínhamos começado a ser notado pelas meninas (pois já as havíamos notado há mais tempo), o Sandro primeiramente. Ele criou uma amizade com a Dans, e algum tempo eu criei com a Virgínia. Algum tempo depois descobrimos como destruir uma amizade perfeitamente tranquila ficando com elas. O Sandro bem antes, eu bem depois.
Mas estou devaneando. Na época, eu estava no platonismo, na tensão romântica puramente projetada, e não fazia nada.
O que entendia na época é que as meninas começavam a nos notar, quando já havíamos realmente desistido de nos fazer notar. O interessante é que isso é um padrão pelo qual várias de minhas relações seguiram, de uma forma ou de outra.
Assim como meu padrão maluco para interesses românticos se iniciou com a Virgínia. Mas isso é outra estória, com personagens demais pra caber nesse texto. Ela me machucou, eu a machuquei, isso já basta.
Sobre as flores, não me lembro o que me levou a escrever pra elas. Não sei os motivos, não sei o que estava escrito. Eu queria muito que fosse algo do tipo: " Flores, continuem bonitas. Flores, mantenham o bom trabalho."
Tenho certeza que não foi isso. Foi algo sobre elas me ajudarem a entender o que é beleza, foi um pedido de iluminação. Algo bem petulante e pomposo, com certeza. E exagerado.
Sabia, Sandro, que reencontrei a Dans esses dias? Está ainda mais bonita, se isso era possível. Mas se tornou uma adulta, com pensamentos coerentes, casada, e totalmente blasé.
Pois é, tem gente que termina seus anos malucos. E tem gente que começa as coisas, e não sabe como terminar. A vida é muito engraçada.
ADOLFO COLEN às
3:36 PM
ADOLFO COLEN às
12:21 AM
Talvez haja alguma forma coerente de se fazer emocionalmente nítido. Uma forma correta de se expressar, de colocar as cartas nas mesas, de se fazer entender.
Mas realmente não conheço.
Sei que a vida é feita de altos e baixos. Sei que nem todos os dias são bons, e que nem toda festa é realmente uma festa. Se eu realmente soubesse o segredo da eterna satisfação, talvez teria escrevido um livro auto-ajuda (provavelmente intitulado Quem Comeu minha Ignorância). Mais provavelmente estaria me perguntando como fui tão burro.
Ninguém quer meditações longas, e uma sensação zen infinita. Nascemos pra questionar, pra lutar, pra não ter nada de mão beijada. Ninguém é feliz sem pensar, sem destemperar. Sem trabalhar, sem tentar construir algo.
Será que fui claro? Espero que não.
Nascemos para ter convulsões, e não há remédio nenhum que cure a vontade de ser mais.
ADOLFO COLEN às
10:28 PM
A fumaça que vem da xícara em minhas mãos ativa minha mente. O café tem sempre o cheiro das lembranças. Aquece as mãos pela porcelana, esquenta o rosto com seu vapor. De minha mesa vejo o dia alaranjado de outono, levemente mais vívido devido ao vidro que fecha a varanda. Colore tudo como sépia, deixando tudo aqui dentro castanho, como se visto através de seus grandes olhos.
A praça em frente fica vazia no início da manhã, por onde o vento frio passa, carregando folhas que se chocam contra as pernas das poucas pessoas já acordadas. Cabelos dançam ao ritmo do clima, sob o barulho de fundo do silêncio, a trilha sonora que embala sonhos acordados.
E eu fico aqui, quieto, tomando meu café. Ouvindo os sinos invisíveis em minha cabeça.
Tudo passa nessa vida, e você continua nova, tentando em algum lugar longe daqui ser feliz. Seja na lua nova ou cheia, nas horas novas da manhã ou nos fins de tarde, amortecida pelo cansaço. Mas você tenta, e é isso que importa. Abre seus longos cílios em algum lugar, e vê uma paisagem nova para explorar. Carrega um sorriso de novo, e é hora de partir.
E eu me sento nesse café, com meu pedido já decorado pelo dono, sentindo o cheiro das lembranças. Eu adoro saber quem eu sou, adoro o gosto da intimidade.
Eu entendo que as marés são regidas pela lua, meu amor. Mas sinto muita falta de você.
ADOLFO COLEN às
9:35 PM
Quem é do Sanatorium já conhece, mas estava com medo de perdê-la nos arquivos da ex-hipocrisia...
Tudo é Pouco
Defendo meu destino, como quem defende cidades litorâneas de maremotos. Com coragem, e um olhar desafiador. Porque no olhar às vezes se expressa o que não pode se dizer. Pelo menos, ao ranger dos dentes, não se fala muito.
Eu careço de devoção. Acredito nesse ar que respiro, no que faz a vida. E acredito no poder da adivinhação. Como um oráculo na beira de uma estrada dessas me disse: "careces de devoção. Acreditas mais no que não existe aos olhos, nos espíritos, e nos sentimentos. Acreditas menos nos atos, menos no plano das consequências."
E fico contando folhas caídas como se fosse dinheiro do céu. Guardo as douradas como lembrança, as secas como advertências, as verdes como esperança.
Sinto muito, é tudo que sei sentir.
Quando sonho com você, defendo meu destino. Como causa suicida, como carta nunca remetida. O gosto do que nunca tivemos, do que nunca falei, do que sempre esqueci. E nunca posso dizer que me arrependo.
Pois você em sonhos faz caras de amuada, de que perdeu muito do que não viveu comigo, que houve tanto desperdício.
E você odeia desperdícios.
E que eu fico na sacada, como julieta abandonada, procurando nas trepadeiras um retalho de um vestido teu.
Mas na realidade eu conto pro vento minha vida. Ele espalha sílabas em vários ouvidos, como uma palavra que não consegue brotar, mas está estalando na ponta da língua. É assim que o vento faz.
Sopra em nossos ouvidos coisas mal-acabadas, mal-entendidas. Ele espalha união de centímetros. Sentimento pra nunca se entender ao todo.
E eu não acredito em desperdícios. Acredito em lembranças, no mundo invisível do que já passou, mas ainda me embala nas noites frias.
Um calor.
Sei o que fiz, o que te falei, o que te beijei. Sei das noites passadas, das noites dormidas.
Sei do gosto de tua saliva.
Sinto muito. Isso eu sei sentir.
Eu defendo meu destino. Como a última curva antes da batida.
ADOLFO COLEN às
4:35 PM
Passeando lentamente pelas ruas molhadas de chuva, fico pensando em nada especial. O asfalto se torna mais negro, o calçamento mais brilhante, mais escorregadio. Pessoas correm mais do que deveriam, sob guarda-chuvas enormes. Tudo parece superlativo em dias de chuva.
As luzes da cidade se acendem mais cedo, antes do pôr-do-sol, dando a impressão de que o tempo também corre mais rápido, e que na verdade não há motivos pra ficar parado então. Somente os postes iluminam gotas como lágrimas luminosas das lâmpadas fluorescentes.
Crianças vestem capas de chuva em tamanhos grande e extra-grande, herdadas provavelmente de seus irmãos mais velhos. Correm pela rua em uma profusão de cores berrantes, longos capuzes, e uma falta de vontade nata de se manter secas. Pisam em grandes poças, espalhando água pelo puro prazer de estarem vivas, e prontas (como sempre) pra brincar.
E ouvindo a estática da chuva, continuo passando lentamente entre o que menos sei, entre o que mais sinto.
Adoro a sensação de ter os cabelos molhados, de sentir meus lábios gelados, de pingar água da ponta do nariz. Amo poder ter meus olhos tão molhados que tudo parece filtrado por um prisma líquido, maléavel de cores misturadas. É como ver o mundo através de bolhas de sabão.
Dias de chuva são bons pra viver em excesso.
ADOLFO COLEN às
9:19 PM
Pois é, esse é o Zwan, a nova banda de Billy Corgan, e eles lançaram o melhor disco do início de 2003, chamado Mary Star of the Sea.
Já começa lindamente com Lyric, com harmonias vocais feminina-masculina que me lembra muito os tempos áureoas dos Pixies, só que ainda mais psicodélico. E vai em diante, com uma sonoridade pop que andava perdida por aí. O video de Honestly já mostra que o cara resolveu ser feliz novamente. o único senão é a canção título, que juntamente com Jesus, I soma 14 minuitos. Não precisava tanto.
De qualquer maneira, um discão, pra se ouvir direto e no repeat. A temporada como guitarrista convidado do New Order fez maravilhas para a música de Billy Corgan. A música El Sol, inclusive, é puro New Order, com baixo hookiano e tudo.
ADOLFO COLEN às
2:36 PM
Efeito Chaplin
Ela colocou as mãos sob o queixo, me olhou de cima a baixo, e disse:
- Me cause alguma emoção. Qualquer uma, é de sua escolha.
Pegou minhas mãos entre as delas, em um gesto, um abraço meio paternalista, e disse que não custa nada tentar. Mãos frias, talvez pelo drink que carregava como um bote salva-vidas. Olhou para o movimento de gente que entra e sai daqui, meio distraída. Ela é desse jeito irritante mesmo.
Adora as frases de efeito, as derrama com o descuido típico dos sonhadores. Pratica a técnica de guerra do bate e assopra, o plano de dominação do search and destroy. Mas desiste do alvo no meio do caminho, enquanto a flecha ainda está no ar. Desvia o rosto no meio do trajeto, nem se preocupando se acertou ou não.
Enquanto brinco com o isqueiro respondo a sua pergunta, mas a música que sai das caixas de som encobre tudo com guitarras estridentes. Devo ter parecido um ator de filme mudo, com gestos levemente acelerados e olhos escuros, não importando a cor.
Reclama distraída da chuva lá fora, que queria estar na varanda sentindo o vento da tarde. Me conta que quando menina sempre gostava das varandas elevadas, que de lá sempre achava que poderia ver as coisas menores, mais palpáveis. Que o mundo deveria caber na palma de nossas mãos.
Brinca com meus dedos, um a um, como se fizesse os cálculos de alguma equação interior. Perde a contagem, suspira, e começa tudo de novo. Esquece da chuva por um momento, e repara alguma faísca dentro de meus olhos. Sorri com poucos dentes, como um adiamento de prazer, e me pergunta no que estou pensando.
Respondo que estava pensando em qualquer emoção que poderia lhe causar. Algum tipo de esgotamento emocional sempre nos faz olhar pra frente. Que talvez o único sentimento plausível seria o dela em me perder.
Ela adquire aquele olhar vaporoso, a expressão REM que prenuncia mais um devaneio. Diz que a chuva é ideal para sentimentos sombrios, ainda mais no lusco-fusco das tardinhas.Que a emoção de me perder seria compatível, mas não inteligível. Atira a flecha e me pergunta o por quê. Quando vira-se pra pedir outro drink, não parece nunca se afogar.
Digo que não dá para continuar, que eu não me meço na palma de sua mão. Que não me oblitero sob o seu polegar.
Ela recebe outro salva-vidas, e o aperta tanto, que parece que o vidro vai se quebrar. Retoma a contagem de meus dedos, reclama de novo da chuva, diz que a noite é pra lua, que eu não posso me enganar. Que devo ater meus momentos com o ideal de clima, e não com o tempo real.
Eu me viro, observo o movimento do bar. A happy hour está quase acabando, mas a chuva não dá sinais de terminar. Digo que meus amigos me esperam no Antonio´s, que não posso mais esperar.
Saio encharcando minhas roupas, e não olho pra trás.
Dessa vez quem não quer ver o alvo atravessado sou eu.
ADOLFO COLEN às
5:05 PM
Uma das regras não-escritas sobre ser feliz é aquela que diz que não adianta estrebuchar. Não adianta colocar as mãos na testa, e dizer que só tem azar, que tudo conspira contra você, que tudo que faz dá errado.
Ninguém pode fazer acordos unilaterais com a natureza e o destino. Taí um contrato cuja validade expira a partir da própria emissão. Shit happens, you know.
Ninguém pediu pra ficar doente no dia em que ia fazer a viagem do ano. Duvido que alguém desejasse que sua vida tivesse os desencontros amorosos de uma comédia romântica. Mas acontece, por mais incrível que pareça. Às vezes a vida imita a ficção.Muitas vezes é até mesmo mais estranha que a ficção.
Existem dias em que é mais difícil se levantar da cama, aquelas manhãs em que tudo que a gente queria era estrangular o sujeito que inventou o despertador.
Mas o tempo continua, se temos relógios ou não. A vida tem uma maneira tortuosa, estranha, até mesmo sádica, de nos levar a algum lugar. Sempre chegamos a algum lugar. Se não nos agrada, paciência. O jeito é continuar procurando.
Eu já disse muitas vezes que a maneira mais fácil de andar é pra frente. Aos trancos e barrancos, que seja.
Teremos sempre nossos momentos.
ADOLFO COLEN às
6:10 PM
Sistema de Cotas
Sei que esse é um assunto que já foi discutido quase à exaustão, mas já me incomoda há bastante tempo. Então talvez antes seja melhor eu contar minha história.
Eu fui uma criança de classe média. Vivi uma vida confortável, porque meu pai e minha mãe trabalhavam. Nunca passei fome, tive um ferrorama A100, daquele que dava uma volta pra chegar a lugar algum, tomava minha coca-cola nos fins de semana, ia no parque municipal aos domingos andar de roda-gigante e detonar um algodão doce. Sou o único filho homem da casa, e tenho duas irmãs mais novas.
Meus pais me estimularam ao máximo pra estudar, eram rígidos mesmo, para que eu me desse bem na vida. Quando cheguei á época da quinta série, fiz uma prova, e consegui entrar em uma das melhores escolas públicas de Belo Horizonte. Pois é, esses monstros estatais ainda existiam nessa época, o que ainda causa saudades em muita gente. Isso era antes da famigerada escola plural, se vocês me entendem.
Minha irmã um ano depois passou pra lá também.Fizemos da 5a séria até o terceiro científico lá, e depois conseguimos passar pra medicina na UFMG. Somos crias da escola pública de qualidade, e fomos fazer ensino superior também de qualidade.
Eu sei que muita gente não teve essas oportunidades, mas eu garanto para vocês que trabalhamos muito para isso. Minha família poderia apertar o cinto e nos colocar em alguma escola particular com um preço acessível. Talvez conseguíssemos bolsas, e tal. E, claro, eles nunca conseguiriam pagar os 1500 reais/mês necessários para formar um médico em uma faculdade privada.
As pessoas não têm mais esse tipo de oportunidade, pois o sistema público, com raras exceções, está uma bagunça. Minha mãe é educadora, e vejo essas coisas de perto.
Mas esse caos justifica a abertura de cotas pra que gente mal-preparada entre nas faculdades por desvios? Que deixem pessoas que acertaram 80% das questões de fora em detrimento de gente que tirou 50%?
A injustiça social desse país é grande, todo mundo sabe. A exclusão social dos negros em nosso sistema é vergonhosa, e já vem de tão longe, o que torna coisa ainda mais nefasta. Essas pessoas que já foram vítimas de tanto preconceito se arriscam a ganhar mais um novo tipo: o de profissional de cota.
A solução está na cara de todo mundo, e ninguém vê: melhorar o ensino público, o tornar universal, e deixar o livre arbítrio ocorrer. Quem quiser estudar, estude. Quem quiser fazer qualquer outra coisa, que faça. Temos que dar as melhores opções, e não simplesmente encostar a juventude na parede com uma oferta de ensino porco e mal-cuidado, pegue ou largue.
O que não adianta é recompensar injustiça com mais injustiça. Dois erros não fazem um acerto.
ADOLFO COLEN às
5:23 PM
Diz-se por aí que não se pode ensinar truques novos a um cão velho. A boca pequena, cochichando, torcendo para que o velho perdigueiro não escute a infâmia.
Todo mundo acha que depois de certa idade somente repetimos nossos atos, num círculo vicioso sem fim. Que retomamos padrões, caminhos conhecidos, e que a tendência simplesmente é se acomodar. Mas como se acomodar, se nunca estamos satisfeitos, se sempre procuramos algo mais?
Não nego que existam certas pessoas que, em determinado momento de suas vidas, resolvem parar de brincar. Decidem pelo total abandono da procura básica dessa vida, e param pra descansar. Esperam que o sol se mantenha a pino no céu, ou que a noite mantenha suas estrelas na posição exata em que deixaram de se guiar. Claro que isso não acontece, e quando é hora de retornar ao jogo, se sentem extremamente desorientadas.
O que quero dizer é que não há como fugir, tudo muda rápido, e se perder um trem, o outro que virá trará modificações em sua própria mecânica, quem sabe nos principais passageiros e tripulação. Portanto, os cachorros velhos também irão aprender novos truques.
Só que aprenderão lentamente, e a sua própria maneira. Como se interpretassem física quântica através de um ábaco. Não existe leitura dinâmica para essas coisas.
Existem somente as entrelinhas.
ADOLFO COLEN às
12:53 AM
Ela vai sussurrar algo em meu ouvido, e desiste no meio do caminho. Respira fundo em meu pescoço, roça o nariz em meu rosto. Sinto seus cabelos tocarem minha pele, e é como se cada fio fosse eletricidade, beijos atordoantes em meus poros.
Resolve encostar sua cabeça em meu ombro, aperta suas mãos em torno de meu braço, olha para o vazio, e no meio do nada acha algum motivo pra sorrir. Diz que o futuro é sempre um mistério.
"Você diz as coisas mais óbvias, os clichês mais batidos", digo numa gargalhada.
"Ah, Adolfo...Sempre quis ser como a Meg Ryan em seus filmes..."
Rimos juntos, e logo caímos em silêncio, observando as crianças que andam de bicicletas de rodinhas. Cambaleiam mesmo em quatro rodas, seguidas de perto por mães entretidas por conversas ininteligíveis.
Ela suspira, aperta um pouco o meu braço, e divide parte de seu peso comigo. "Mas que o futuro é um mistério, ah, isso é" , arremata decidida.
E o pior é que acredito nela.
ADOLFO COLEN às
10:39 PM
Ainda sobre Secos e Molhados: eu e eum amigo estávamos conversando sobre essa banda, e ele me saiu com uma opinião no mínimo intrigante.
Ele desconfia que os Tribalistas, que tantos de nós adoramos malhar hoje em dia, pode ser os Secos e Molhados da geração jovem daqui a 20 anos. Eles redescobrirão o disquinho, e acharão algo espetacular em cada faixa dele.
Eu acho que ele tem suas razões. Pessoas pedantes musicalmente (como eu e a maioria de meus amigos), provavelmente teríamos esnobado o Secos e Molhados caso fôssemos jovens em 1972. Devido ao sucesso estrondoso, devido à esperteza de seus integrantes, devido ao gato preto que cruzou a estrada...
Será que isso é muito distante dos Tribalistas é um anti-movimento, e fé em Deus e fé na taba?
ADOLFO COLEN às
8:46 PM
Eu gostaria de ser o cara da música dos Secos e Molhados, chamada "Fala": Eu não sei dizer nada por dizer/ então eu escuto...
Mas isso passa longe de minha verdade. Eu falo demais.
Gostaria de ser aquele sujeito cool, que aguardasse o momento certo para tirar da cartola um comentário genial. Daqueles que ficam fumando seu cigarrinho no canto da mesa, remexendo o seu scotch, enquanto deixa o papo rolar, e olha as pessoas com um olhar entre divertido e entediado. Mas realmente não sou assim.
Fico ansioso, comento sobre tudo, e consequentemente deixei muitas vezes de ter a clarividência de manter minha boca fechada. Ainda mais quando estou interessado nela. Aí viro um adolescente de 28 anos, com muitas palavras e pouca objetividade.
Não que o amor tenha que ser objetivo, já que não é mesmo.
Cada um com seu charme, cada um com sua ruína...
ADOLFO COLEN às
8:40 PM
Acabei de ver a um filme chamado "O Papel de uma Vida". É um filme tipico hollywoodiano, com escolhas e senso comum aos montes, mas a premissa do filme me intrigou demais: um ator é dado como morto, e cinco anos depois, volta a Hollywood, onde estão fazendo um filme sobre sua vida. E ele, claro, acaba conseguindo o papel. Durante a filmagem ele tem a oportunidade de ver a distância suas atitudes questionáveis, seu temperamento, e começa a se perguntar se tudo valeu a pena.
Eu fiquei pensando que oportunidade única seria, se pudéssemos voltar no tempo, rever nossa vida de uma perspectiva mais neutra, já que já passou muita água embaixo dessa ponte. não somos os memsos, e nem estamos vivendo as emoções de primeira mão, fresquinhas e brutais.
Será que concordaríamos com nossas ações? Será que faríamos algo diferente?
Nós somos essas experiências também, e modificá-las talvez nos tornaria pessoas diferentes...
Mas eu tenho certeza que um ou dois desvios na biografia não fariam muito mal...
ADOLFO COLEN às
5:58 PM
Ritmo da Chuva
Você dança comigo, e roda em círculos cada vez maiores, como se algum tipo de droga entrasse sorrateira em nosso sangue. Como se a noite fosse paulatinamente ficando menos nítida, a lua perdendo seus contornos e se tornando pastiche do sol.
Carrega em seu peito inúmeras desilusões, a maior delas talvez a vontade de que tudo pudesse ser curado por um simples ato de amor. Que num fechar de olhos, num espasmo de palavras, num soluço engasgado, tudo ficasse bem. Que voltasse a se sentir completa.
Talvez a maior desilusão sendo a noção de que nunca foi completa, pra começar.
Ensaia passos menos vacilantes, endireita a coluna, faz ar de auto-suficiência. Encaixa os braços em meu pescoço, e aperta meu rosto contra o seu.
Me diz que não quer chorar. Você simplesmente pára na música, e diz que não quer mais chorar. Deixa os braços caírem ao lado do corpo, me olha sem nenhum foco, e desiste de dançar. Olha as outras pessoas no salão, com seus drinks, com seus sorrisos, com a tagarelice típica de quem não sabe o que está dizendo. Recosta-se na parede, colocando os braços pendentes atrás do corpo, e olha o candelabro no teto.
Pego em sua cintura, e conduzo você até o centro da pista. Normalmente o lugar mais vazio nessas festas, o olho do furacão. Agarro sua cintura, encosto seu rosto em meu peito, e continuamos a dançar. Não há nada mais que posso fazer.
Ao contrário dessa festa, e de outras que virão, na vida a música não acaba. Até o dia em que pudermos descansar, vamos ter que dançar. Conforme a música, contra o ritmo, apesar do ritmo.
Por isso, só posso pedir que se agarre em meu pescoço agora. E deixe a música tocar.
ADOLFO COLEN às
3:02 PM
Como já escancarei minha paixão platônica por ela, posso bem colocar uma letra:
Come Away With Me
Norah Jones
Come away with me in the night
Come away with me
And I will write you a song
Come away with me on a bus
Come away where they can´t tempt us
With their lies
I want to walk with you
On a cloudy day
In fields where the yellow grass grows
Knee-high
So won´t you try to come
Come away with me and we´ll kiss
On a mountaintop
Come away with me
And I´ll never stop loving you
And I want to wake up with the rain
Falling on a tin roof
While I´m safe there in your arms
So all I ask is for you
To come away with me in the night
Come away with me
Tem gente que espera uma vida inteira por um convite como esses...
ADOLFO COLEN às
2:27 PM
Ok, tenho que admitir. A voz dessa mulher me acorda todas as manhãs. Se tenho direito a uma paixão platônica, escolho Norah Jones.
ADOLFO COLEN às
11:18 PM
A noite caminha inexoravelmente pra um amanhecer, e eu com a mesma fome invencível corro sem olhar pra trás. Todas as pedras que passam em burburinho pelas rodas de borracha quente. O chão crepita, minha garganta seca se engasga com poeira mais uma vez. Mais uma vez me encontro saindo de algum lugar, chegando a lugar algum. Everybody knows this is nowhere.
O cigarro queima mais rapidamente contra o vento, espalhando cinzas e faiscas de luz, como vagalumes que estouram em mil cores. Como fogos de artifício, como feira de interior.
Me lembro das meninas em vestidos claros, soltando beijos num desfile em câmera lenta, como se espíritos de divas de cinema baixassem em seus corpos queimados de sol. Me lembro de velhinhas de mãos dadas indo para a igreja, terços enrolados na mão, antecipando em suas mentes inquietas o cardápio do almoço. As crianças perseguindo o circo que chegava, anunciando o show de mais a noite. Todas queriam ao menos dar uma olhada no elefante albino, que soltava um rastro de água branca por onde passava.
Boiadeiros disputavam, em cima de seus cavalos, quem passava uma varinha de bambu por mais argolas dependuradas nas vigas de madeira apínhadas de bandeirolas de muitas cores. Donos de barracas preparavam o caldo de feijão a mandioca, enquanto suas esposas expulsavam os bêbados da noite anterior, ganhando em troca abraços sem jeito, que invitavelmente esbarravam por seus quadris e seios.
Nara colocava a guirlanda na cabeça, se preparando para o concurso de rainha da primavera. Roubou as flores do jardim da igreja, enquanto estavam todos assistindo ao Padre Antônio dar seu sermão usual de 40 minutos. Enquanto as crianças bocejavam, ela colheu algumas margaridas, pra misturar às pequenas flores vermelhas que colheu atrás da casa de minha tia. Colocou-a emaranhada entre seus cabelos ondulados, abriu o vestido o segurando pelos lados. Deu uma voltinha, e me perguntou como estava.
Disse que estava linda, e que não havia como ela perder aquele concurso. Sorriu entre as mechas alouradas de seus cabelos castanhos, e soprou um cacho que tentava machucar seu olho direito. "Tudo pra não manchar a maquiagem", me disse gargalhando. "Talvez somente o baton", piscou.
Nesse momento Dona Irene a foi arrastando pela mão até o pátio onde se daria o concurso. Nara olhou pra trás, soprou um beijo pelo ar, e correu atrapalhada pelos saltos, soltando poeira vermelha que caía lentamente até um outro passo a reavivar.
Poeira vermelha que volta a ter vida nas rodas do carro, no brilho pálido do sol que volta a nascer atrás das montanhas que cercam minha cidade. O nevoeiro no vale parece forte, espesso. Tão espesso que meu carro parece trepidar ao perfurá-lo. Me deixo envolver pelo branco, e me lembro do bendito elefante albino. Não consigo escapar de um sorriso.
Ela perdeu o concurso. Mas me ganhou, num escambo de intenções.
Estranhas as trocas dessa vida: eu te dou um beijo, e ganho em troca saudade.
ADOLFO COLEN às
2:23 PM
Cidade Branca
As luzes da cidade passam coloridas
Emoldurando velas fracas da avenida
As luzes da cidade passam coloridas
Como ilusões de cachoeiras refletidas
Dentro de mim
As luzes da cidade passam coloridas
Entre os sorrisos dúbios das meninas
As luzes da cidade passam coloridas
Como alcool derramado nas feridas
Dentro de mim
07/03/2003
ADOLFO COLEN às
1:10 AM
Heartland
Eu conheci uma menina que desenhava corações por onde passava. Eu via seus rastros, seguia seus passos pelos rabiscos estilizados nas paredes brancas de todos os bares que eu frequentava. E sabia como ela se sentia, sabia mesmo. Sabia pelo tato, pela tinta, pelo rastro.
Quando estava triste, eles eram pequenos, e ligeiramente murchos. Quando estava feliz, eram grandes e arredondados. Quando se sentia romântica, os desenhava com arabescos requintados. Se era um dia óbvio, eram atravessados por flechas. Nos dias em que a auto-estima era grande, os desenhava com baton em espelhos.
Se a raiva era incontida, os rabiscava com navalhas nas mesas do balcão.
Foi num dia desses que a vi pela primeira vez. Um estilete de colégio nas mãos, um olhar de fúria expansiva, negra, aprofundando as covas que contornavam a boca apertada. Rabiscava um coração anguloso, parecia uma escultura de pedra representada em madeira. Desconfio que ela estava se sentindo contraditória nesse dia também.
Quando notou meu interesse, parou o que estava fazendo. Desenhou algo que parecia-se muito com um coração, mas de formas tortas, com vários limites borrados. Estava confusa, eu acho. Me levantei e fui falar com ela.
Simpática, me disse que seu nome era Ludmilla, e que começou a desenhar há alguns meses. Não deu um motivo certo, simplesmente filosofou sobre causas e motivos,e da total falta de correlação entre eles na vida dela. Falou que só sabia ser impulsiva, e que se houvesse outra forma de ser não poderia me dizer coerentemente.
Me contou que teve sua cota de decepções amorosas, mas que não foi culpa deles nada do que acontecia com ela agora. Um dia simplesmente acordou com uma vontade enorme de desenhar corações, e nunca mais parou. Que nunca desenhou um igual ao outro, e que nunca retornava pra revê-los. Não queria ver o que se passou, mas entender o que estava por vir.
Decidi me juntar a ela em seus impulsos, e pedi um beijo. Nada demais, somente um beijo.
Ela olhou para a mesa de dois corações, um completo e outro um rascunho, e ficou em silêncio por alguns segundos. Bateu o cabo do estilete na madeira marcada, e disse que me daria um beijo sim, mas com uma condição: que eu a deixasse desenhar com seu delineador um coração no lado esquerdo de meu peito.
Claro que eu tive que negar. Agradeci o papo interessante, apertei sua mão fria, e me retirei de novo para o balcão. Pedi mais uma dose, bebi rapidamente e fui embora.
Eu não podia aceitar, vocês sabem. Um só já é demais pra mim.
Um só já é o bastante.
ADOLFO COLEN às
5:35 PM
Sempre gostei de ler expressões pelos olhos. Mas existem olhares e olhares, assim como pessoas e pessoas. Algumas delas dizem tudo com uma simples faísca, um próprio laser de intenções. Outras parecem ter escondido tudo em poços fundos de melancolia ou mesmo frieza. Acho que o que quero dizer é que existem os expansivos e os retraídos.
Acho particularmente assustadoras as meninas de olhos verdes. Não importa o tom, pois qualquer nuance vem carregada de mistérios. Nos olham com aquele tom penetrante, que parece lascivo na maioria das vezes, mas muitas vezes somente revelam o alvo das atenções, e não a emoção que esse alvo lhes causa.
No último ano, me envolvi com um número pouco comum dessa meninas. Vejam bem, pode ser que minha amostragem esteja viciada. Não randomizo meus sentimentos, e pode ser que esteja preso a algum círculo vicioso, mas o que acontece é que essas meninas sempre me deixaram profundamente perturbado, pelo simples fato de não ter uma idéias da emoção básica que elas sentiam as olhando profundamente nos olhos.
A última chegou ao cúmulo de rir depois de mais uma tentativa frustrada. Ela simplesmente disse:
- E aí, não consegue saber mesmo o que sinto, né?
Ante a minha negativa, ela falou que isso acontecia sempre, e que achava muito chato ter que se expressar sempre com palavras e atos, e nunca poder deixar seu rosto dizer simplesmente o que ela estava sentindo.
Portanto, posso não estar maluco nessa teoria. Talvez os olhos verdes filtrem as emoções de forma mais convincente que os escuros, ou talvez eu é que tenha me envolvido em um número variável de roubadas. Só o tempo vai dizer.
Mas, que é perturbador ser vigiado ao acordar por dois pontinhos verdes de incerteza, ah, isso é.
ADOLFO COLEN às
4:10 PM
Quem quer explicação demais quase sempre passa batido. Não quero dizer que as coisas devem ficar sem resposta, mas sim que nem todas as respostas são satisfatórias.
Não nasci pra ler livros de auto-ajuda. Ninguém é um robozinho, que aje e reaje da mesma forma a um mesmo estímulo. Todo mundo pega o que viveu, o que passou, avalia, e segue em frente.
E não, ninguém roubou meu queijo.
ADOLFO COLEN às
5:02 PM
ok
ADOLFO COLEN às
4:53 PM
Vista da pousada em que ficamos. Fama - MG.
ADOLFO COLEN às
11:55 AM
PROFUNDO DO AR
Ela marca uma carta e me dá
E diz que sabe o que há
Entre a minha mente e a dela
Somente diz que sabe
Mas nem pensando está
E eu dirijo sem parar
Que as estradas se reúnam
Para dizer onde o medo está
E ela só conta as pétalas
Suspira e embaça as janelas
Sonha com banhos de mar
E eu quero ser a ponta das coisas
E o profundo do ar
06/12/99
ADOLFO COLEN às
11:44 AM
Você morde o lábio inferior com tanta força que parece que vai sangrar. Mas não sangra, simplesmente fica branco, contrastando com o vermelho superior.
Olha pra baixo, tentando tirar os nós dos dedos, liberar qualquer sentimento que você possa em algum momento ter. Suas mãos se expressam melhor que qualquer palavra.
Caminha de um lado para o outro, como a buscar a atmosfera exata, o chão mais firme. Quer a paisagem certa pra um momento específico.
Você não entende. Não quero a foto perfeita, nem o roteiro completo.
Não me preocupo com isso.
Senta perto de mim, e começamos daqui.
ADOLFO COLEN às
11:24 AM
Eu sempre digo, e repito: essa vida é uma montanha russa com triplo looping. Uma hora em baixo, outra hora no alto, muitas vezes de cabeça pra baixo.
O carnaval foi legal, me diverti bastante. Um ou outro acidentes de percurso. Certas derrapadas, poucas batidas.
Tudo pode acontecer. Mesmo.
ADOLFO COLEN às
11:12 PM
e-mail
Musicoterapia
4-Track
Dicas do Tio Colen
Nansense
Sanatorium
Ilha de Siris
Contextos
Nunca Plantávamos Coentro
Lemniscata
Carambolices
Causos de Amor
Blue Woman
Penso Logo Digito
Allons, Enfants
Não Discuto
Bagunça Bem Feita
Ur-Gente
Balandronada
Desliga esse Pecado
Parasita de Idéias
Avesso
Caderno V
Ane
Spectorama
Who´ll Stop The Rain
Meus Momentos
Vaquinha Cinéfila
Chez Moi
O Mutante
Megeras Magérrimas
La Vie en Blues
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Teorias da Loucura
Trash
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Bêbada e Equilibrista
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Tome uma Xicara de Chá
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